O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), desembargador Francisco Eduardo Loureiro, afirmou que a lavagem de dinheiro do crime organizado não ocorre nas bocas de fumo, mas nos bairros mais nobres da capital paulista e no corredor financeiro da Avenida Faria Lima.
Em entrevista ao 95º episódio do programa Controle Externo, divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP) na terça-feira (3), o magistrado destacou que as facções utilizam criptomoedas, fundos de investimento e empresas offshores para ocultar patrimônio ilícito.
Durante a conversa conduzida pela jornalista Karyn Bravo, o chefe do Judiciário paulista relatou uma reunião de 40 minutos com o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, focada no enfrentamento às grandes estruturas criminosas.
Conforme explicou o desembargador, o encontro entre as cúpulas das duas instituições não tratou de artigos do Código Penal, pois toda a discussão girou em torno de mecanismos de direito societário e empresarial usados para limpar capitais ilegais.
Para conter o avanço dessas organizações que operam como verdadeiras empresas voltadas ao lucro, a corte paulista ampliou para todo o estado a competência das varas especializadas em crimes financeiros e lavagem de valores.
Localizados no Fórum Criminal da Barra Funda, na capital, por questões de proteção pessoal, os juízes titulares dessas bancas miram a asfixia patrimonial dos grupos e os receptadores que alimentam furtos de celulares e fraudes bancárias nas ruas.
“A lavagem de dinheiro não está na boca de fumo, mas nos bairros mais nobres de São Paulo, no corredor da Faria Lima. Se nós secarmos essa fonte, o crime organizado vai diminuir, pois foi assim que a máfia norte-americana foi controlada.” — Francisco Eduardo Loureiro, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo.
Uso de inteligência artificial para acelerar processos no maior tribunal do mundo
Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e magistrado desde 1985, Loureiro assumiu o comando da corte no início de 2026 após dirigir a Escola Paulista da Magistratura e chefiar a Corregedoria Geral da Justiça no biênio 2024-2025.
Hoje o tribunal estadual responde por cerca de um terço de todo o movimento judiciário brasileiro e ocupa o posto de maior do mundo em volume de processos julgados, com uma estrutura de 42 mil funcionários, quase 3 mil juízes e 600 prédios.
Com a previsão de receber entre 8 milhões e 9 milhões de novas ações ao longo deste ano, a instituição profere uma sentença a cada quatro segundos e exige que cada magistrado julgue uma média de 400 casos por mês (cerca de 20 por dia útil).
Diante desse volume expressivo de trabalho, a administração adquiriu ferramentas de inteligência artificial da Microsoft, modelos de linguagem avançados e um sistema voltado à elaboração de minutas para auxiliar o corpo técnico na triagem de autos que chegam a 50 mil páginas.
Respeitada a diretriz do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que proíbe a substituição do juiz por algoritmos na tomada de decisão, os programas atuam na busca rápida de precedentes, no resumo de peças e na transcrição de audiências gravadas em áudio e vídeo.
“O temor de que eu seja julgado por um robô não existe, pois o poder decisório é do juiz e ele não pode substituí-lo por uma solução de inteligência artificial. Hoje o grande desafio é a capacitação dos juízes, servidores e assessores para usar as ferramentas que dão velocidade e qualidade às decisões.” — Francisco Eduardo Loureiro, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo.