A cidade de Lima, no Peru, recebeu a edição peruana do Blockchain Summit Latam On Tour 2026, encontro que reuniu reguladores, bancos centrais, instituições financeiras, fintechs, empresas de tecnologia, acadêmicos e especialistas internacionais para discutir o avanço da blockchain como infraestrutura para pagamentos, mercados, tokenização e ativos digitais.
Realizado na Universidad del Pacífico, o evento marcou o início do circuito regional do Blockchain Summit Latam pela América Latina e reforçou uma tendência cada vez mais evidente: a blockchain deixou de ser uma discussão restrita ao universo cripto e passou a ocupar espaço nas agendas estratégicas de bancos, reguladores, universidades e grandes empresas.
Um dos aspectos que mais chamou atenção foi justamente o caráter institucional do encontro. A presença de autoridades como Paul Castillo, gerente-geral do Banco Central de Reserva do Peru, Elmer Sánchez, da Gerência de Operações Monetárias e Estabilidade Financeira do Banco Central peruano, e Milton Vega, Deputy Manager de Pagamentos e Infraestruturas Financeiras do Banco Central do Peru, reforçou o peso da agenda regulatória e monetária no evento. Também participaram representantes de órgãos de supervisão financeira, como a Superintendencia de Banca, Seguros y AFP e a Superintendencia del Mercado de Valores del Perú, ampliando o diálogo entre bancos centrais, reguladores, instituições financeiras e empresas globais.
Essa composição deu ao evento um tom voltado à aplicação prática da tecnologia no sistema financeiro. Mais do que discutir tendências, os painéis colocaram no centro da conversa os desafios reais de implementação, supervisão, interoperabilidade, compliance e adoção institucional.
A aliança com a academia também merece destaque. Ao levar o debate para dentro de uma universidade, o Blockchain Summit Latam reforçou seu compromisso educacional e aproximou o mercado da esfera acadêmica, criando um ambiente de troca entre reguladores, empreendedores, especialistas técnicos, estudantes e pesquisadores. Essa conexão é especialmente relevante em um setor que ainda demanda formação qualificada, compreensão regulatória e maior capacidade técnica para transformar inovação em infraestrutura segura e escalável.
Ao longo da programação, os debates abordaram temas como infraestrutura financeira digital, stablecoins, tokenização de ativos, pagamentos transfronteiriços, interoperabilidade, open finance, custódia institucional e regulação de ativos digitais. A tônica das discussões foi clara: a próxima fase da blockchain na América Latina será menos sobre promessa e mais sobre implementação.
Para Rafael Teruszkin, Head LatAm da Bitpanda Enterprise, empresa que também participou como patrocinadora do Blockchain Summit Latam em Lima, o evento evidenciou uma mudança importante no estágio de desenvolvimento do mercado regional.
“O Blockchain Summit LatAm, realizado em Lima, revelou uma evolução marcante no mercado regional de ativos digitais: o debate tornou-se mais institucional, mais construtivo e muito mais próximo da sua implementação efetiva. O que se destacou foi a forte presença de reguladores e representantes do setor público, não como observadores passivos, mas como participantes ativos na definição de estruturas capazes de apoiar a inovação e, ao mesmo tempo, proteger os usuários e o sistema financeiro”, afirmou.
Segundo ele, o encontro também demonstrou que a adoção institucional deixou de ser apenas uma projeção para se tornar uma realidade em construção.
“Ao mesmo tempo, o evento reuniu bancos, fintechs, corretoras, provedores de infraestrutura e empresas que já demonstram casos de uso maduros, desde a tokenização de ativos reais e pagamentos até custódia e acesso regulado a ativos digitais. Como Head LatAm da Bitpanda Enterprise, vejo estes aspectos reforçarem nossa visão de que a América Latina já entrou em uma nova fase de adoção, na qual uma infraestrutura confiável será fundamental”, completou Teruszkin.
Um dos principais pontos discutidos foi o papel dos bancos centrais e reguladores na construção de ambientes seguros para inovação. Em uma região marcada por desafios como custos elevados de remessas, baixa interoperabilidade entre sistemas financeiros, acesso desigual a serviços bancários e volatilidade cambial, a adoção de novas infraestruturas digitais aparece como uma oportunidade para aumentar eficiência, transparência e inclusão.
Nesse contexto, um dos destaques locais foi o projeto de CBDC do Peru, voltado à digitalização e tokenização da moeda local, o sol peruano. A iniciativa foi apresentada como uma resposta concreta aos desafios de inclusão financeira e modernização dos meios de pagamento no país. O projeto busca ampliar o acesso a pagamentos digitais, especialmente em regiões menos atendidas pelo sistema financeiro tradicional, e mostra como os bancos centrais latino-americanos começam a testar soluções próprias para a nova infraestrutura monetária digital.
As stablecoins também estiveram entre os temas centrais da conferência. Mais do que instrumentos de negociação em plataformas cripto, elas foram discutidas como infraestrutura monetária capaz de viabilizar liquidações mais rápidas, pagamentos internacionais mais eficientes e novos modelos de integração entre bancos, fintechs e empresas. O avanço desse mercado, no entanto, também trouxe à tona a necessidade de marcos regulatórios claros, mecanismos robustos de compliance e padrões de interoperabilidade entre diferentes jurisdições.
A tokenização de ativos também ganhou espaço relevante. Os painéis mostraram como ativos do mundo real, instrumentos financeiros, recebíveis, fundos, títulos e outros direitos econômicos podem ser representados em redes digitais, criando novos caminhos para liquidez, fracionamento, negociação e acesso ao mercado de capitais. O tema foi tratado como uma das principais pontes entre o mercado financeiro tradicional e a economia digital.
Outro eixo importante foi a integração entre blockchain e instituições financeiras tradicionais. A presença de bancos, consultorias, provedores de tecnologia e reguladores evidenciou que a adoção institucional já não é uma hipótese distante. O debate agora passa por questões práticas: como estruturar custódia, como mitigar riscos operacionais, como cumprir exigências de prevenção à lavagem de dinheiro, como conectar sistemas legados a redes blockchain e como criar produtos regulados para diferentes perfis de usuários.
O evento também refletiu o amadurecimento do ecossistema latino-americano. Se em anos anteriores grande parte da conversa sobre blockchain na região era concentrada em criptoativos, exchanges e ciclos de mercado, a edição de Lima demonstrou uma mudança de enfoque. O centro da discussão passou a ser a infraestrutura: pagamentos, liquidação, regulação, compliance, interoperabilidade e modelos de adoção institucional.
Essa mudança é especialmente relevante para a América Latina. A região tem uma combinação única de fatores que tornam a inovação financeira digital particularmente necessária: alto volume de pagamentos internacionais, dependência de remessas, mercados fragmentados, barreiras de acesso a serviços financeiros, moedas locais sujeitas a diferentes níveis de instabilidade e forte presença de fintechs. Nesse contexto, blockchain, stablecoins, CBDCs e tokenização passam a ser vistos não apenas como tendências tecnológicas, mas como ferramentas para resolver problemas reais.
Para Bernardo Janot, da IBM, a integração regional foi um dos pontos mais relevantes do encontro.
“Participar do Blockchain Summit LatAm em Lima mostra na prática como a integração entre os países da região é essencial para acelerar o desenvolvimento do mercado. Conectar empresas e fortalecer diferentes ecossistemas cria oportunidades reais de colaboração e crescimento conjunto”, afirmou.
Segundo Janot, a agenda do evento demonstrou um amadurecimento do debate em diferentes países da América Latina.
“Foi um evento muito positivo, com discussões relevantes e uma agenda cada vez mais madura em diversos países da América Latina. Como IBM, é empolgante acompanhar e contribuir com essa evolução, apoiando clientes e parceiros na construção de soluções que ganham escala regional”, completou.
A edição de Lima também reforçou a importância do diálogo regional. Ao reunir participantes de diferentes países, o Blockchain Summit Latam mostrou que a evolução da infraestrutura financeira digital não será construída de forma isolada. Regulação, padrões técnicos, integração bancária, interoperabilidade e modelos de supervisão precisarão ser pensados de maneira coordenada, especialmente em temas como pagamentos cross-border, ativos tokenizados, moedas digitais e circulação de stablecoins.
Com uma agenda voltada à prática e à integração entre setor público, setor privado e academia, o Blockchain Summit Latam em Lima consolidou a capital peruana como um dos pontos centrais da discussão sobre inovação financeira na região. O evento mostrou que a próxima etapa da blockchain na América Latina será menos sobre narrativas abstratas e mais sobre construção institucional, educação, infraestrutura e implementação.
Após Lima, o circuito regional do Blockchain Summit Latam segue para sua próxima edição em Santiago, no Chile, entre os dias 5, 6 e 7 de agosto, na Universidad de Chile, dando continuidade ao debate sobre regulação financeira, banca comercial, infraestrutura do sistema financeiro e o papel da blockchain na transformação dos mercados latino-americanos. A próxima parada será mais uma oportunidade para reunir reguladores, instituições, empresas e academia em torno de uma agenda comum: construir, de forma colaborativa, a nova infraestrutura financeira da região.
