Outubro deve revelar novo desenho do mercado de ativos digitais no Brasil

Prazo de licenciamento das empresas reguladas pelo Banco Central e novas discussões sobre tokenização devem marcar uma etapa decisiva para o setor, apontaram especialistas durante abertura do Blockchain.RIO 2026

Os próximos meses devem começar a revelar qual será a configuração do mercado brasileiro de ativos digitais sob o novo ambiente regulatório.

Outubro aparece como um dos principais marcos desse processo, diante do prazo mencionado para que empresas enquadradas como prestadoras de serviços de ativos virtuais solicitem autorização ao Banco Central.

A partir do fim de outubro e ao longo de novembro, o mercado poderá ter uma visão mais concreta de quantas empresas seguirão operando dentro desse novo cenário.

O tema esteve no centro da mesa que abriu oficialmente o Blockchain.RIO 2026, em 12 de agosto, no Rio de Janeiro.

O encontro colocou na mesma discussão representantes do mercado, da academia e de instituições regulatórias da América Latina para debater como regulação, inovação e desenvolvimento econômico podem avançar de maneira coordenada.

Participaram da mesa Francisco Carvalho, CEO do Blockchain.RIO; Juan Carlos Reyes, da CNAD de El Salvador; Patrícia Tudisco, do Banco Central del Uruguay; Rodrigo Henriques, da Fenasbac; Claudio J. Tessone, da Universidade de Zurique e UZH Blockchain Center; e Julia Rosin, da ABcripto e Coinbase. A abertura foi conduzida pela jornalista Carla Fiorito.

Outubro como ponto de inflexão

A discussão apontou que o desafio brasileiro deixou de ser simplesmente decidir se os ativos digitais devem ou não estar sujeitos a regras.

O debate agora está concentrado em como construir um arcabouço que combine proteção ao consumidor, prevenção à lavagem de dinheiro, combate a fraudes e capacidade de inovação.

Conforme apresentado durante o painel, empresas que se enquadram como prestadoras de serviços de ativos virtuais precisam solicitar autorização ao Banco Central dentro do prazo estabelecido para outubro.

Quem não obtiver enquadramento ou permanecer fora do processo terá, segundo a discussão realizada no palco, um período para encerrar suas operações. Nem todos os modelos de negócio relacionados a ativos digitais, entretanto, estão necessariamente submetidos ao mesmo tipo de licença.

Existe um grupo de trabalho com a CVM sobre tokenização. No grupo de estudos é observado como tokenizar ativos com segurança e outros temas. A CVM tem metas bem ousadas para este ano“, afirmou Julia Rosin, presidente da ABcripto.

Por isso, o período entre o final de outubro e novembro foi apontado como importante para produzir uma espécie de “raio-X” do mercado brasileiro, mostrando quantas empresas estarão efetivamente submetidas ao novo ambiente regulado e como os diferentes modelos de negócio deverão se organizar.

A expectativa sobre o número de pedidos de autorização também mudou ao longo dos últimos meses.

Segundo o debate, algumas empresas já encerraram atividades e a projeção atual de pedidos seria inferior àquela considerada antes da divulgação das regras. O número concreto, porém, somente poderá ser conhecido após o encerramento do prazo.

Regulação precisa entender como o mercado funciona

Outro ponto central da discussão foi a necessidade de aproximar cada vez mais os reguladores da dinâmica operacional do setor.

Como discutir sobre a tecnologia dentro das definições corretas e sem quebrar o ritmo da inovação? Educar os reguladores é o primeiro passo“, disse Rodrigoh Henriques, Diretor de Inovação e Estratégia do Instituto Fenasbac.

O trabalho de interlocução entre indústria e poder público foi descrito como um processo de tradução: demonstrar como as operações funcionam, quais são os diferentes modelos de negócio e onde efetivamente estão os riscos que precisam ser tratados pela regulação.

A mesa reforçou que regras relacionadas à proteção do cliente, prevenção à lavagem de dinheiro e antifraude fazem parte do amadurecimento da indústria.

O desafio está em construir mecanismos suficientemente efetivos para reduzir riscos e ilícitos sem criar barreiras que inviabilizem o desenvolvimento do próprio mercado.

El Salvador, um país pequeno, conseguiu implementar regras com relativa rapidez. O Brasil, por outro lado, é uma grande economia e precisa ser cauteloso nesse processo. Ao mesmo tempo, o setor não está unificado a ponto de poder fazer uma única solicitação ao governo“, disse Juan Carlos Reyes, Presidente da Commision Nacional de Activos Digitales de El Salvador.

Essa discussão também deve ganhar uma nova dimensão depois do primeiro ciclo de licenciamento.

Uma das expectativas apresentadas no painel é que, à medida que o Banco Central acumule informações sobre as atividades efetivamente desempenhadas pelas empresas, o próprio desenho regulatório possa evoluir.

A possibilidade de flexibilização futura, entretanto, foi apresentada como expectativa do mercado e não como compromisso do regulador.

Portanto, quem tiver mais dinheiro, quem conseguir se organizar mais rapidamente e apresentar uma proposta que o governo possa supervisionar e regular, é quem vai prevalecer. O mercado está muito segregado no momento. É uma bagunça. Ainda não atingiu a maturidade necessária para exigir uma supervisão adequada“, concluiu.

Tokenização também entra no centro da agenda regulatória

O Banco Central não é o único regulador envolvido na transformação do mercado.

Durante o painel, também foi destacado o avanço das discussões da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) relacionadas à tokenização.

O plano de gestão de 100 dias mencionado na sessão resultou na criação de um grupo de trabalho dedicado à construção e ao teste de regras para esse mercado.

Entre os principais pontos em discussão estão segurança das operações realizadas em blockchain, segregação patrimonial e mecanismos de supervisão dos prestadores de serviços.

A percepção apresentada foi de que 2026 deve ser entendido como um ano de construção das regras que influenciarão o funcionamento do setor nos próximos ciclos, mais do que como um momento em que todo o arcabouço já estará definitivamente estabelecido.

Um dos desafios será criar condições para que a evolução regulatória não concentre excessivamente o mercado e permita que empresas menores continuem entrando, inovando e crescendo dentro do ecossistema.

A experiência suíça: primeiro a regra, depois o ecossistema

Para colocar o momento brasileiro em perspectiva, a abertura do Blockchain.RIO apresentou a trajetória da Suíça como um caso relevante de construção de um ambiente favorável ao desenvolvimento da indústria blockchain.

O país começou a estruturar esse cenário ainda na década passada.

Em 2014, a Ethereum Foundation estabeleceu-se na Suíça, movimento que foi seguido pela chegada de outros projetos e pelo desenvolvimento progressivo de um ecossistema envolvendo empresas, pesquisadores, universidades e reguladores.

A leitura apresentada durante a mesa foi de que a sequência desse desenvolvimento é importante: primeiro houve um ambiente regulatório capaz de acomodar inovação; depois vieram projetos, mercado e uma estrutura acadêmica crescente em torno da tecnologia.

Na Universidade de Zurique, o interesse por blockchain surgiu simultaneamente em áreas distintas, como Filosofia, Economia e Negócios, Finanças e Ciência da Computação.

Antes mesmo da criação de uma estrutura acadêmica específica, cerca de 20 professores de diferentes faculdades já pesquisavam o tema.

Atualmente, as linhas de pesquisa mencionadas incluem forense on-chain, análise do fluxo de ativos, protocolos de consenso, finanças descentralizadas, manipulação de mercados e segurança de sistemas baseados em blockchain.

A conexão entre Brasil e Suíça também apareceu na área acadêmica. Uma escola de verão voltada ao tema nasceu a partir de uma experiência realizada na Universidade de São Paulo e, desde 2022, ocorre presencialmente em Zurique, recebendo aproximadamente 80 estudantes de diferentes países e 60 professores por edição.

Regulação de ativos digitais também passa pelo Congresso

O processo de amadurecimento regulatório brasileiro não termina no Banco Central e na CVM.

A mesa destacou a necessidade de ampliar a interlocução da indústria com o Congresso Nacional, especialmente em temas como segregação patrimonial, stablecoins e outras iniciativas legislativas envolvendo ativos virtuais.

Quem realmente pode ajudar a consolidar o mercado de stablecoins é o Congresso Nacional. Não o Banco Central, nem a CVM. E já estamos em conversa com eles. Os próximos quatro anos podem dar uma nova cara para o setor“, disse Julia Rosin.

O calendário eleitoral de 2026 tende a dificultar a velocidade de algumas dessas discussões, mas não elimina a necessidade de construção de uma agenda de longo prazo entre mercado, reguladores e formuladores de políticas públicas.

O movimento também representa uma mudança de maturidade da própria indústria. Se durante os primeiros ciclos do mercado blockchain a discussão esteve concentrada principalmente em tecnologia e inovação, o desenvolvimento da indústria passa hoje por decisões relacionadas a regulação, infraestrutura financeira, mercado de capitais, pagamentos, compliance e políticas públicas.

Foi justamente essa interseção que marcou a abertura do Blockchain.RIO 2026.

Ao reunir representantes de reguladores, instituições financeiras, mercado, associações e academia, o encontro colocou no centro da discussão uma questão que deverá acompanhar o setor ao longo dos próximos meses: qual mercado de ativos digitais o Brasil pretende construir depois que a fase de definição das regras der lugar à sua implementação?

Sobre o Blockchain.RIO

O Blockchain.RIO é uma das principais plataformas institucionais da América Latina dedicadas ao debate sobre blockchain, tokenização, stablecoins, ativos digitais, regulação e infraestrutura financeira digital.

Por meio de eventos, fóruns executivos, iniciativas de conteúdo e articulação institucional, conecta reguladores, bancos centrais, instituições financeiras, empresas de tecnologia, provedores de infraestrutura, exchanges, asset managers, investidores, formuladores de políticas públicas e lideranças globais para discutir a transformação dos mercados, dos sistemas de pagamento e da economia digital.

A edição de 2026 será realizada de 11 a 13 de agosto, no Rio de Janeiro, com uma agenda estratégica formada pelo Financial Infrastructure Forum – LATAM, Blockchain Leaders e o Blockchain.RIO Main Event, além de experiências institucionais e eventos paralelos.

A programação foi desenhada para ampliar o diálogo entre setor público, iniciativa privada e ecossistema de inovação, fortalecendo o papel do Brasil e da América Latina na construção da próxima geração da infraestrutura financeira global.

Tenha uma conta global para explorar o mercado de criptomoedas. Cadastre-se na OKX e descubra uma plataforma completa para negociar e acompanhar seus ativos digitais.

👉Entre no nosso grupo do WhatsApp ou Telegram| Siga também no Facebook, Twitter, Instagram, YouTube e Google News.

Gustavo Bertolucci
Gustavo Bertoluccihttps://github.com/gusbertol
Graduado em Análise de Dados e BI, interessado em novas tecnologias, fintechs e criptomoedas. Autor no portal de notícias Livecoins desde 2018.

Últimas notícias