Economista com mais de 1 milhão de livros vendidos cita João Paulo Mayall ao lado de Fidelity e Schwab em defesa do bitcoin

Autor de “O Padrão Bitcoin”, traduzido para mais de 35 idiomas, Saifedean Ammous recorre ao cálculo do brasileiro, que mostra o bitcoin oscilando 1,52x o ouro contra 9,4x em 2018, para rebater a tese de que a oferta fixa impede o bitcoin de ser dinheiro

Henrique HK
Henrique HK
Formado em desenvolvimento web há mais de 20 anos, Henrique Kalashnikov encontrou-se com o Bitcoin em 2016 e desde então está desvendando seus pormenores. Tradutor de...
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Resumo
  • Saifedean Ammous citou o brasileiro João Paulo Mayall ao lado de estudos da Fidelity e da Charles Schwab para defender o Bitcoin como dinheiro.
  • Segundo o levantamento de Mayall, a volatilidade anualizada do Bitcoin caiu de 97,3% para 44,3%, ficando em agosto apenas 1,5 vez acima da do ouro.
  • Mayall prepara o livro 5,000 Years Is Enough, que critica o papel monetário do ouro sob a perspectiva da Escola Austríaca de Economia.

Saifedean Ammous publicou nesta terça-feira (13) uma resposta ao professor Lawrence White, da George Mason University. No livro Better Money, White sustenta que a oferta fixa deixa o bitcoin volátil demais para funcionar como dinheiro.

Para rebater a tese, Ammous reuniu 5 levantamentos, entre eles estudos da Fidelity e da Charles Schwab e o cálculo do empresário João Paulo Mayall, cofundador da QR Capital e responsável pelo QBTC11, primeiro ETF de bitcoin da América Latina, que mostra a volatilidade de 1 ano do bitcoin em apenas 1,52x a do ouro.

O debate

O artigo saiu no X e responde a uma indicação do próprio White. Ammous, que publicou “O Padrão Bitcoin” em 2018 e soma mais de 1 milhão de livros vendidos, tinha afirmado que nunca viu um argumento coerente contra a oferta fixa do bitcoin, e o professor sugeriu o capítulo 6 de Better Money: Gold, Fiat, or Bitcoin?, lançado em 2023 pela Cambridge University Press.

Ammous agradeceu e chamou a obra de primeira tentativa coerente que encontrou de sustentar essa crítica, só que disse continuar não convencido.

A tese de White é que o ouro leva vantagem sobre o bitcoin porque, quando a demanda pelo metal sobe, as mineradoras ampliam a produção e ajudam a segurar o poder de compra. Ammous inverte o argumento.

Se uma oferta que responde à demanda fosse virtude, questiona, o cobre, o ferro ou a prata teriam vencido a competição monetária, já que todos foram dinheiro antes e acabaram substituídos pelo ouro justamente por serem mais fáceis de produzir.

Os números do próprio ouro reforçam o ponto, segundo o economista. Dados do World Gold Council mostram que o estoque de ouro cresceu em média 1,7% ao ano nos últimos 25 anos. Na década de 1970, quando a onça saiu de US$ 35 para US$ 800, a oferta cresceu 1,34% ao ano, e na década seguinte, com o preço recuando para US$ 380, cresceu 1,39%.

Ammous resume a crítica com uma analogia. Atribuir a vitória do ouro à sua pequena elasticidade de oferta, escreve, é como dizer que Usain Bolt venceu os 100 metros porque desacelerou perto da linha de chegada.

Onde entra o dado brasileiro

White escreveu no livro que a volatilidade do bitcoin não caiu à medida que seu valor de mercado cresceu. Para Ammous, a afirmação provavelmente já estava errada quando foi publicada e hoje é muito difícil de sustentar.

É nesse trecho que o economista escreve que J. P. Mayall “mostrou que a volatilidade realizada de 252 dias do bitcoin caiu para apenas 1,52 vez a do ouro”.

O levantamento, publicado pelo brasileiro no X em 7 de outubro, calcula a volatilidade de 1 ano dos 2 ativos desde 2013. Em março de 2018, o bitcoin oscilava 9,4x mais que o ouro. Desde então, a volatilidade do bitcoin caiu de 97,3% para 44,3%, enquanto a do ouro subiu de 10,3% para 29,2%, no ano em que o metal registrou sua maior queda diária desde 1983. Em agosto, a razão entre os 2 chegou a 1,50x, a menor da série.

Mayall antecipou a objeção de que a aproximação se deve à alta da volatilidade do ouro, e não à queda da do bitcoin. Mesmo que o metal voltasse à volatilidade mediana de 2000 a 2024, a distância hoje seria de 3x, menor que qualquer leitura anterior a 2025. “A volatilidade já convergiu, a alocação ainda não”, escreveu J. P. Mayall.

A resposta de Ammous também cita o paper de Kim-Oanh Do na Borsa Istanbul Review, que aponta queda da volatilidade diária e spreads mais estreitos no mercado de bitcoin entre 2012 e 2025, além de um estudo de Huda Aldhahi com dados horários.

Na conclusão do artigo, Ammous afirma esperar que a monetização do bitcoin continue produzindo saldos maiores, mais liquidez e menos volatilidade. Para ele, a volatilidade da fase de transição não descreve o destino.

Os estudos por trás do dado

O cálculo citado por Ammous não é um trabalho isolado.

Cofundador da QR Capital, gestora vendida em 2025, Mayall estruturou o primeiro fundo multimercado 100% em bitcoin do Brasil, em 2020, e o QBTC11, em 2021, além de ter sido responsável por um dos primeiros projetos de tokenização de valores mobiliários aprovados no sandbox regulatório da CVM. Em paralelo, publicou 4 papers no SSRN, a plataforma de pesquisa acadêmica da Elsevier, que formam a base de suas análises sobre moeda, bitcoin e ouro:

O julgamento do ouro

Questionado sobre por que reúne tantos argumentos contra o ouro, Mayall conta que os papers são a espinha dorsal de um livro que está por vir, intitulado 5,000 Years Is Enough: The Case Against Gold and the Future of Money, com o subtítulo A Prosecution Through the Lens of the Austrian School of Economics.

“O ouro está sendo desmonetizado, e está repetindo o caminho que a prata fez depois do fim do bimetalismo, em 1873. A prata também foi dinheiro por milênios, até aparecer um dinheiro mais duro. O livro é um julgamento do ouro pelas lentes da Escola Austríaca.”

O projeto também é pessoal. “Minha família acredita no ouro há 6 gerações. Eu fui o primeiro a passar essa convicção pela régua austríaca, e o ouro não sobreviveu ao julgamento”, diz J. P. Mayall.

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