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Cregis vê stablecoins como base do sistema financeiro global

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O mercado global de criptomoedas passou por transformações drásticas desde o seu grande “boom” inicial. O que antes era um ecossistema dominado por exchanges nativas e especuladores de varejo, hoje atrai a atenção massiva de instituições financeiras tradicionais, bancos centrais e empresas de pagamentos globais.

Para entender os bastidores dessa revolução institucional, o Livecoins conduziu uma entrevista exclusiva com Richard Meng, Co-Fundador e Head da região EMEA (Europa, Oriente Médio e África) da Cregis.

Durante a conversa, Meng detalhou a jornada da empresa desde a sua fundação na China continental, o pivô estratégico em direção às stablecoins, a visão otimista sobre a regulação global e a ambiciosa expansão da Cregis para a América Latina, com a escolha estratégica da cidade de São Paulo, no Brasil, como o seu principal hub regional

Abaixo, apresentamos a cobertura completa e detalhada desta entrevista, abordando todas as perguntas levantadas e as visões valiosas de um dos líderes de infraestrutura mais experientes do setor.

Das exchanges nativas aos bancos tradicionais

A entrevista começou explorando as origens da Cregis e qual é o serviço mais demandado pelos seus clientes atualmente. Richard Meng transportou a narrativa para o ano de 2017, um período marcado pelo surgimento de gigantes do setor.

“Baseado no tempo, a Cregis foi fundada em 2017 na China continental. Naquela época, o principal cliente alvo eram as exchanges de criptomoedas, era um momento de explosão para elas, empresas como a Binance também estavam começando em 2017”.

Meng explicou que, globalmente, o maior problema dessas novas corretoras era a segurança e a urgência. Construir uma tecnologia proprietária do zero levava muito tempo, entre três a seis meses para configurar tudo.

A Cregis entrou exatamente para preencher essa lacuna: “Nós ajudávamos as exchanges de criptomoedas a construir toda a solução de ativos digitais, segurança e sistema de pagamentos de entrada e saída”.

No entanto, Meng destacou uma mudança fundamental que ocorreu nos últimos dois a três anos. Com o amadurecimento do mercado e a popularização das stablecoins, o perfil do cliente da Cregis mudou drasticamente. “Muitas fintechs tradicionais estão entrando na indústria blockchain, como bancos, empresas de pagamento, empresas de pagamentos transfronteiriços e de conversão fiat-cripto (on/off ramp)”.

Essas instituições tradicionais possuem a vontade de operar com ativos digitais, mas carecem da infraestrutura tecnológica segura. A Cregis, portanto, passou a fornecer a tecnologia de base para que “o banco tenha a segurança para o ativo digital” e para que “a empresa de pagamentos tenha a capacidade de operar um sistema de pagamentos com stablecoins”.

Richard Meng no Merge SP

A Resiliência das stablecoins em meio ao “inverno cripto”

Questionado pelo Livecoins se a demanda pelos serviços da Cregis estava estável, caindo ou aumentando — especialmente considerando os períodos de queda no mercado de criptoativos —, Meng foi categórico ao separar o mercado especulativo do mercado de utilidade real.

Ele observou que a demanda continua a crescer, mas fez uma distinção crucial. “Há duas coisas. Uma é o Bitcoin ou a blockchain; a outra é o pagamento com stablecoins. Na verdade, já são duas coisas distintas”. Meng admitiu que o lançamento de novos projetos e tokens não é favorável quando moedas como Bitcoin, Ethereum ou Solana estão em queda.

No entanto, o núcleo do negócio atual da Cregis está imune a essa volatilidade: “O que estamos fazendo agora, que é o pagamento com stablecoins, está crescendo, porque é como um sistema de pagamento global. As pessoas estão adotando cada vez mais o pagamento com stablecoins”.

Ele enfatizou que, independentemente de o Bitcoin subir ou descer, a utilização de stablecoins como infraestrutura primária para bancos e provedores de pagamento continuará a aumentar globalmente.

A Chegada à América Latina

Um dos pontos altos da entrevista foi a explicação sobre a expansão geográfica da empresa. Meng traçou a rota da Cregis: originária da Ásia (Hong Kong e Singapura), a empresa expandiu-se para Dubai para cobrir as regiões da África e Europa, e este ano voltou seus olhos para o mercado latino-americano.

A decisão não foi por acaso. “Quando olhamos para o mercado latino, fizemos muitas análises, e as pesquisas dizem que o mercado latino tem muita adoção de criptomoedas e muitas stablecoins”. Como provedores de tecnologia, a liderança da Cregis sentiu que era o momento de trazer sua expertise asiática para o ocidente.

Ao avaliar as vastas opções na América Latina — que incluíam Argentina, Colômbia e México —, o Brasil se destacou. “Finalmente, tomamos a decisão de vir para o Brasil. E no Brasil, viemos para São Paulo. Agora estabelecemos nosso escritório e filial aqui em São Paulo, porque é a maior cidade daqui e também há muitas empresas de fintech baseadas aqui”.

Segundo Meng, São Paulo servirá como o grande hub regional da Cregis para gerenciar e expandir os negócios por toda a América Latina, com planos futuros de alcançar a Argentina, o México e, possivelmente, Miami.

Regulação na construção da confiança

O Livecoins questionou se a regulação global sobre criptomoedas e stablecoins estaria ajudando ou atrapalhando as empresas do setor. Contrariando a visão libertária tradicional de muitos entusiastas cripto, Meng foi enfático sobre os benefícios das leis governamentais.

“Isso ajuda. Na verdade, muitas pessoas não gostam de regulação, mas agora a regulação está chegando para construir confiança para este negócio”. Ele lembrou que, sem regras claras, a tecnologia blockchain frequentemente era associada a esquemas fraudulentos e lavagem de dinheiro, o que afastava o capital institucional. “Uma vez que as regulamentações chegam e estabelecem as regras, este negócio se torna legal, então mais empresas terão confiança para entrar neste mercado”.

Meng compartilhou sua surpresa positiva com o ambiente regulatório brasileiro. Tendo vivenciado regulamentações muito rígidas em países como a China, ele temia que o Brasil seguisse um caminho semelhante. No entanto, a realidade foi outra: “Nestes últimos dois dias, também discutimos com o Banco Central e outras instituições bancárias, e eles já estão começando a adotar cripto”.

Para a Cregis, como provedora de tecnologia B2B, um ambiente regulatório claro é o cenário ideal, pois atrai mais empresas tradicionais para o ecossistema cripto, gerando mais clientes para seus serviços de infraestrutura.

O Diferencial competitivo: Infraestrutura de custódia e experiência

Com o mercado saturado de empresas oferecendo “serviços cripto”, o Livecoins perguntou como a Cregis se diferencia das demais. A resposta de Meng apontou para a extrema complexidade e exclusividade do que eles constroem.

“O que oferecemos é chamado de infraestrutura de ativos digitais ou tecnologia de custódia. As pessoas que fazem este negócio são muito poucas, uma mão é suficiente. Globalmente, acho que talvez no máximo 5 ou 10 empresas façam isso”.

Ele revelou que muitas empresas que afirmam fornecer serviços de custódia na verdade não possuem tecnologia própria; elas utilizam a infraestrutura da Cregis ou de seus concorrentes diretos nos bastidores.

A verdadeira barreira de entrada, segundo o executivo, não é apenas o código, mas a experiência empírica em segurança. Bancos que tentam desenvolver isso internamente falham após anos de tentativa porque a segurança cibernética exige a vivência de cenários extremos. “Nós, desde 2017 até agora, atendemos cerca de 4.000 clientes institucionais: exchanges, bancos, corretoras, empresas OTC, family offices, e [vimos] muitos ataques de hackers também”.

Meng afirmou que um banco pode prever os cenários de risco “A, B, C e D”, mas os hackers atacarão por vetores inesperados. Como instituições financeiras não podem tolerar ser hackeadas nem mesmo uma única vez, elas dependem de provedores como a Cregis, que já acumularam anos de resiliência e experiência em batalha para proteger os ativos.

Visão de longo prazo e a utilidade das stablecoins

Sobre como ele enxerga o mercado nos próximos anos e o que diria a pessoas que nunca tiveram experiência com cripto, Meng ofereceu uma perspectiva fundamentada na utilidade diária em detrimento da especulação.

Embora o mercado invente tendências a cada um ou dois anos — como NFTs ou moedas meme (memecoins) —, a verdadeira confiança do executivo reside nas stablecoins. “Muitas pessoas na Nigéria, na Argentina ou na Turquia… estão mantendo stablecoins, elas não são traders. Elas estão usando stablecoins para proteger o seu dinheiro por causa da grande desvalorização da moeda local”.

Para Meng, enquanto muitos tokens não possuem valor a longo prazo, as stablecoins estão resolvendo problemas reais e ajudando a vida diária das pessoas, o que justifica o foco integral da Cregis em fornecer infraestrutura para este segmento.

Os maiores desafios

Considerando a alta complexidade técnica dos serviços prestados, o Livecoins investigou quais são os principais desafios enfrentados pela Cregis no seu dia a dia.

O primeiro desafio, de acordo com Meng, é a confiança. “O que oferecemos são soluções de ativos digitais. É sobre dinheiro. É sobre segurança. Eles precisam confiar na nossa tecnologia, caso contrário, é muito difícil, porque muitas empresas usarão nosso serviço para proteger o seu valor”.

O segundo grande desafio é a falta de compreensão tecnológica por parte dos clientes tradicionais. Diferente de projetos puramente nativos de cripto que já dominam os conceitos da blockchain, as fintechs e bancos tradicionais estão entrando agora neste universo. Meng relatou que muitas vezes esses clientes tradicionais tentam desenhar produtos de cripto baseados exclusivamente no conhecimento e na mentalidade das finanças antigas.

“Às vezes é realmente difícil para eles fazerem a transição porque eles têm a sua própria experiência… e baseados no seu próprio conhecimento desenham alguns produtos, o que, com base na nossa experiência, pode não ser o caminho correto ou não ser bom”.

Quando o Livecoins pontuou se isso significava que educar os clientes era um desafio, Meng concordou plenamente. “Sim, sim, sim. Certo… mas isso é algo a longo prazo. Acho que cada vez mais pessoas adotarão stablecoins e cripto, elas vão aprender e, definitivamente, o mercado vai crescer”.

Conselhos para empreendedores

Pedindo orientações para empreendedores que estão tentando construir negócios no setor B2B a partir do zero, Meng ressaltou a importância da adaptação e do estudo contínuo.

“Continuem aprendendo, continuem aprendendo essa nova tecnologia, busquem mais informações, porque o mundo está mudando o tempo todo”. Ele usou a própria Cregis como exemplo: no passado, eles só lidavam com corretoras cripto, mas hoje precisam lidar com o complexo sistema bancário. “Se não entendermos o sistema bancário, não posso dar uma boa solução… Precisamos falar com o banco ou com os meios de pagamento na mesma língua”.

A chave para o sucesso no cenário atual, segundo Meng, é a união de conhecimentos. Indivíduos que conseguem cruzar a experiência do mundo blockchain com a experiência do mundo das fintechs tradicionais terão uma vantagem competitiva inestimável para tornar seus negócios mais competitivos.

Questionado sobre conselhos pessoais sobre investimentos, Meng polidamente desviou, reiterando o DNA puramente tecnológico da empresa: “Muitas pessoas me perguntam como conselho pessoal se devem investir em Bitcoin… nós não damos esse tipo de sugestão pessoal. Somos mais focados na tecnologia, não operamos trading. É por isso que não vejo muito valor nas moedas meme, mas acredito mais no valor da stablecoin para ajudar o mundo”.

Enquanto muitas empresas no setor tentam atirar para todos os lados — querendo fazer trade, criar moedas e oferecer serviços variados —, a Cregis escolheu o seu nicho. “Para nós, manteremos o nosso foco, manteremos o nosso foco no nosso negócio, na nossa tecnologia… nós apenas focamos na nossa tecnologia de custódia e infraestrutura de pagamentos cripto para empresas”. Essa é, e continuará sendo, a grande missão e visão da Cregis.

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Livecoins