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Empresa de bitcoin que funcionava dentro de “faculdade” pode ter dado prejuízo de R$ 30 milhões

Projeto Rota 33, que tinha robô de arbitragem, virou "febre" na cidade

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A UniFroebel é uma consultoria educacional de Catanduva (SP) que oferece cursos de graduação e de pós-graduação. Desde o início de 2019, no entanto, a instituição de ensino “emprestou” seu CNPJ para a empresa “Projeto Rota 33”, que vende pacotes de investimentos em ativos digitais.

Esses “produtos financeiros” estariam atreladas a rendimentos mensais de 20% sobre o capital aportado.

A ideia de lançar essa nova empreitada foi do empresário Thiago Troncoso, que é dono da “faculdade”.

Segundo investidores e advogados ouvidos pela reportagem do Livecoins, Troncoso dizia em suas palestras que tinha o sonho de criar algo no mercado de criptomoedas, pois se preocupava com a “educação financeira da população”.

Reprodução de uma entrevista feita com o empresário Thiago Troncoso/YouTube

Desde outubro, no entanto, o Projeto Rota 33 – que nunca teve autorização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para oferecer contratos de investimentos coletivos – deixou de pagar os investidores.

O resultado foi um prejuízo estimado em R$ 30 milhões a cerca de 700 pessoas, além de uma enxurrada de processos abertos na Justiça de Catanduva, que acredita que o negócio é uma pirâmide financeira.

A reportagem entrou em contato com a defesa de Troncoso e do Projeto Rota 33, mas até o fechamento desta matéria não obteve resposta.

Projeto Rota 33, que tinha robô de arbitragem, virou “febre” na cidade

A empresa funcionava em uma sala – dentro da instituição de ensino – equipada com televisores e computadores. De lá, Troncoso e mais três sócios faziam reuniões quase que diárias para falar sobre as maravilhas do mercado de criptomoedas e explicar como conseguiam o lucro estratosférico de 20% ao mês. A sede foi transferida, no início de novembro, para o centro da cidade.

Esses rendimentos, diziam os empresários, eram obtidos graças a um robô de arbitragem de criptomoedas, semelhante ao usado pela Atlas Quantum, fintech que desde agosto está com dificuldade de pagar os investidores, e empresas investigadas por prática de pirâmide financeira, a exemplo da Binary Bit.

“O Projeto Rota 33 virou uma ‘febre’ na cidade e todo mundo queria investir”, disseram investidores e advogados ouvidos pela reportagem.

Projeto Rota 33 muda regra e começa a pagar só 3% ao mês

A partir de outubro, no entanto, o Projeto Rota 33 mudou as regras do “jogo” e começou a oferecer apenas 3% de lucro ao mês sobre o investimento, segundo o advogado Fernando Pereira da Conceição, que defende 150 clientes que investiram de R$ 26,2 mil a R$ 300 mil.

“Os responsáveis pela empresa alegaram que, por causa da queda do bitcoin em setembro, não conseguiriam mais pagar o lucro prometido anteriormente”, disse Conceição. 

Depois do anúncio da redução do lucro, falou o advogado, a empresa enviou um comunicado aos investidores pedindo para eles enviarem documentos que comprovassem a “origem dos depósitos efetuados”. Seria uma forma, informou a empresa, de evitar que o Projeto Rota 33 fosse usado para “fins ilícitos”.

Desde então, os pagamentos, que deveriam ser feitos todos os meses, deixaram de ser feitos. Já os empresários, que garantiam os rendimentos milagrosos e conseguiram ganhar a confiança de boa parte da cidade, não respondem mais.

Investidora com tumor no cérebro investiu R$ 26,5 mil

Uma das investidoras que acreditou no negócio foi Marlene Wolff, 49 anos. Em setembro, depois de participar de uma palestra sobre o projeto, ela investiu R$ 26,5 mil, com a promessa de receber R$ 5,3 mil por mês ao longo de dois anos, que é o período do contrato geralmente formalizado pela empresa.

Uma semana depois de depositar o valor, disse à reportagem, ela ficou sabendo que tinha um tumor no cérebro. “Mesmo com a péssima notícia sobre a doença, eu estava contente, pois com os R$ 5,3 mil eu conseguiria pagar pelo tratamento do tumor, que dá cerca de R$ 3,2 mil”.

Mas não foi assim que aconteceu. Marlene falou que só recebeu R$ 780 em outubro. Logo depois, disse, foi atrás de Troncoso para pedir o pagamento e explicar a situação dela, mas a única coisa que ganhou foi ser bloqueada por ele e pelos outros membros do negócio nos grupos de conversa.

“Olha, estou numa situação terrível, umas das piores da minha vida, e não sei como vou sair dessa”, disse ela, que está desempregada.

Justiça determina bloqueio de R$ 1,4 milhão do projeto

Além de Marlene, centenas de investidores também estão com dinheiro preso no negócio. Muitos já entraram com ações na Justiça de São Paulo. Nesta semana, por exemplo, o judiciário de Catanduva determinou o bloqueio de R$ 1,47 milhão da empresa..

A decisão foi uma resposta a um processo movido por 28 investidores da cidade paulista. Na sentença, publicada nesta quarta-feira (18) no Diário de Estado de São Paulo, o juiz também determinou o bloqueio dos bens de Thiago Troncoso.

Segundo o magistrado, a empresa tem indícios de ser um esquema de pirâmide financeira.

“Ao que pode se vislumbrar, pela ausência de qualquer vínculo da ré com a CMV ou com empresas autorizadas a negociar as chamadas criptomoedas e um rendimento mensal de 20%, muito acima do irrisório o valor anual de rendimento da aplicação financeira de menor risco (rendimento em 2018 foi de 4,55%), os autores foram vítimas de esquema Ponzi”, disse o juiz.

Na decisão, o magistrado citou o Art.300 do Código de Processo Civil, que diz que “a tutela de urgência (bloqueio) será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo”, o que, segundo ele, é evidente nesse caso específico por causa da “interrupção de pagamento sem justificativa plausível” por parte da empresa.

“Acolho parcialmente os pedidos de tutela provisória para (…) deferir o bloqueio on-line de numerário até o limite de R$ 1.470.000,00 (um milhão e quatrocentos e setenta mil reais), porque se trata do valor que os autores desembolsaram (efetivo prejuízo)”, disse trecho da decisão do juiz

O advogado Lucas Moreno Progiante, que defende as 28 pessoas desse caso, comemorou a decisão e disse que agora está correndo atrás de outros órgãos. Denúncias, disse, foram feitas inclusive para o Ministério Público do Estado de São Paulo.

Vale lembrar que o MP paulista tem um inquérito enorme, aberto no final de 2017, para investigar casos de pirâmides financeiras em todo o Brasil.

Empresário do Projeto Rota 33 lança nova empresa

Mesmo com todo o “pepino” gerado pelo Projeto Rota 33, o empresário Thiago Troncoso lançou uma nova empresa, chamada Sport Found, em São José do Rio Preto, município localizado a quase 60 quilômetros de Catanduva. O negócio é focado na venda de cursos sobre trader esportivo.

Confira o vídeo do novo negócio de Thiago Troncoso:

O empresário disse, no vídeo, que objetivo da nova empreitada seria “trabalhar a educação financeira do nosso país”, que estaria bem atrasada quando comparada a de países de “primeiro mundo”.

Resta saber, agora, o que Troncoso entende por “educação financeira”. Se for sumir com o dinheiro das pessoas, então já dá para imaginar qual será o objetivo da Sport Found.

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Lucas Gabriel Marins
Lucas Gabriel Marins
Jornalista desde 2010. Já escreveu para UOL, Gazeta do Povo, Agência Estadual de Notícias (AEN) e outros veículos.

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