
(Foto/Reprodução)
A escassez crônica de dólares está forçando o setor privado na Venezuela a buscar alternativas financeiras urgentes. Um recente relatório da agência de notícias Reuters, veiculado pelo jornal argentino La Nación nesta segunda-feira (23), revela que as pequenas e médias empresas (PMEs) do país sul-americano estão recorrendo cada vez mais às criptomoedas para conseguir importar insumos básicos e manter suas linhas de produção funcionando.
Apesar das promessas do governo de melhorar a alocação de divisas, o novo sistema oficial está cheio de obstáculos.
Isso porque, os leilões de dólares são esporádicos, discricionários e deixam de fora a maioria dos pequenos empresários, que se veem encurralados pela desvalorização constante do bolívar.
A odisseia é diária para os comerciantes locais. O dono de uma empresa farmacêutica, que preferiu não se identificar por questões de segurança, relatou à Reuters que seus pedidos de compra de dólares nos leilões oficiais foram rejeitados três vezes sem qualquer explicação.
Sem acesso à moeda americana, torna-se impossível importar os princípios ativos necessários para fabricar medicamentos básicos, como remédios para febre e dor de cabeça.
“Você não sabe a que custo vai repor a mercadoria porque não sabe quando vai conseguir comprar as divisas nem a que taxa“, explicou o empresário. “Os bolívares que você recebe pelas vendas vão perdendo valor por causa da inflação (…) Enquanto isso, você tem que manter a produção“.
Essa forte incerteza cambial e uma inflação brutal que ronda a casa dos 600% obrigaram os empresários a ajustar drasticamente os preços de seus produtos para cobrir os custos nos mercados paralelos.
Segundo uma pesquisa recente da Conindustria, um dos principais sindicatos industriais do país, 58% dos proprietários de médias empresas venezuelanas afirmam que a falta de divisas é o maior obstáculo para a produção.
O ecossistema financeiro venezuelano continua fortemente isolado do sistema global devido às sanções internacionais, o que dificulta enormemente o acesso a transferências bancárias e plataformas de pagamento.
Esperava-se que o panorama econômico melhorasse após a drástica reviravolta política ocorrida em janeiro de 2026, quando o ex-presidente Nicolás Maduro foi preso pelos Estados Unidos e Delcy Rodríguez assumiu como presidente encarregada.
Desde então, Washington tem incentivado o investimento nos setores de petróleo, gás e mineração do país, concretizando vendas de petróleo no valor de US$ 2 bilhões.
Até mesmo Doug Burgum, secretário do Interior dos EUA e membro do gabinete de Donald Trump, visitou Caracas em março, destacando os esforços para estabilizar o bolívar e mitigar os efeitos tóxicos da hiperinflação.
No entanto, na prática, os dólares não estão chegando à economia real. Analistas locais calculam que os leilões oficiais realizados entre meados de janeiro e o início de março de 2026 somaram apenas US$ 1,3 bilhão, uma queda de 13% em comparação com o mesmo período de 2025.
Os poucos dólares disponíveis estão sendo canalizados quase exclusivamente para grandes indústrias (alimentos, bebidas e saúde), marginalizando empresas menores de tecnologia, químicos e plásticos.
Diante dos controles rigorosos do banco central venezuelano e das revisões minuciosas dos bancos correspondentes estrangeiros — que barram a maioria das transações comerciais das PMEs —, as empresas encontraram na tecnologia blockchain a sua única rota de fuga.
As criptomoedas, que já haviam provado ser um salva-vidas fundamental para a população venezuelana no passado, estão retomando seu protagonismo no comércio corporativo.
Embora muitos empresários esperassem que o aumento do fluxo petroleiro transformasse o uso de ativos digitais em algo apenas para casos de “emergência”, a dura realidade do mercado os obrigou a integrá-los novamente em sua contabilidade diária para pagar fornecedores internacionais.
“Nós, que não conseguimos ir aos leilões, vamos para o outro mercado”, sentenciou de forma resignada outro empresário do setor químico ouvido pela reportagem. Em uma economia onde o sistema tradicional falha e o dinheiro fiduciário perde valor a cada minuto, as criptomoedas reafirmam sua utilidade real como uma ferramenta de resistência comercial e sobrevivência financeira.
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