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NegocieCoins afirma que quer divulgar sua cold wallet, “só não sabe quando”

Entrevista com o grupo Bitcoin Banco realizada antes da crise atual, onde tentamos saber, por exemplo, que questões explicam o volume de transações da Negocie Coins e da TemBTC frente a outras exchanges do mercado.

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negocie coins auditoria

Em entrevista exclusiva ao portal Livecoins, o assessor da presidência do grupo Bitcoin Banco, Bruno Ramos, afirmou que o grupo pretende divulgar as cold wallets de suas exchanges como forma de dar transparência para suas ações. Porém afirmou que essa divulgação depende ainda de muitos ajustes de “segurança” e que não há previsão para que isso aconteça.

Nossa equipe conversou por telefone com Bruno Ramos no dia 22 de maio, portanto, na semana seguinte ao início dos bloqueios ou restrições de saques nas exchanges do grupo, que começaram entre os dias 13 e 14 de maio. Por isso, o foco da entrevista não esteve sobre a crise atual.

Na verdade, o intuito deste texto foi exclusivamente dar espaço para que o grupo Bitcoin Banco respondesse a uma série de dúvidas e críticas que pairam há meses sobre a comunidade brasileira de criptomoedas.

Tentamos saber, por exemplo: que questões explicam o volume de transações da Negocie Coins e da TemBTC frente a outras exchanges do mercado? Qual o motivo das diferenças constantes de preços entre as exchanges do grupo? E por que as exchanges não divulgam suas cold wallets?

Estrutura, empresas e pessoal

De início, vale apresentarmos algumas informações básicas sobre o grupo Bitcoin Banco. Segundo as informações do assessor, o grupo tem dois anos e meio de existência e conta com mais de duzentos funcionários. Sob o grupo estão três exchanges: a Negocie Coins, a TemBTC e a BATexchange. Ele cita ainda a Fork Content, empresa de publicidade e propaganda, e a Get4Bit, um e-commerce baseado em criptomoedas. Embora tenhamos perguntado, o assessor não quis divulgar o faturamento anual do grupo.

Com sua sede localizada no centro da cidade de Curitiba (PR), eles ocupam um prédio comercial com “mais de cinco andares”, segundo Ramos, e possuem ainda uma agência na capital paulista. Vale destacar que a localização física das empresas faz sentido com a proposta de atuação do grupo. Isso porque, segundo Ramos, o banco “surgiu com a intenção de tornar a negociação com criptomoedas mais pessoal, então, é muito legal a função dele, quando o cliente chega e ele vê um consultor especializado em criptomoedas que atende ele ‘olho no olho’”.

Empresa central do grupo, o que o Bitcoin Banco oferece para seus clientes é rendimento em cima dos bitcoins depositados com eles. Ou seja, custódia em troca de “compensações”, expressão usada pelo grupo para nomear os rendimentos. Algo parecido com serviços como o Atlas Quantum, que oferece rendimentos de arbitragem, e o Anubis, que oferece de trading.

Um dos “produtos” oferecidos pelo banco é própria custódia de bitcoins. Por esse trabalho, o banco paga ao cliente, em 90 dias, 3% de “compensação”. Se for por um semestre, o cliente tem 6% de compensação. Outros produtos que oferecem são de trade, como BTCM+, que oferece “a segurança e apoio integral de uma equipe de traders profissionais”, garantindo uma compensação de 1% ao mês ao cliente e um “adicional, por performance entre 2% e 7%, dividido em partes iguais entre você e o Bitcoin Banco”. Eles não citam possíveis perdas, o que dá a entender que o lucro é garantido.

Em termos de futuras expansões, Ramos afirma que eles vão continuar investindo em novos negócios. Ele lembra ainda que as três exchanges do grupo cresceram bastante nos últimos meses e afirma: “nosso foco é sempre trabalhar no mundo das criptomoedas”.

Outro objetivo do grupo agora é ir além do Brasil: “mês passado, a gente abriu os cadastros internacionais”, afirmou, explicando que já foi aberta a possibilidade de cadastro nos sites por estrangeiros e que está também sendo preparado um site em inglês. Infelizmente, ele não soube precisar números sobre a porcentagem de clientes brasileiros ou estrangeiros na plataforma.

“Instrução 1.888 vai trazer transparência”

Começamos perguntando a Ramos qual a posição do grupo sobre a Instrução Normativa 1888, editada recentemente pela Receita Federal.

“Ela traz uma transparência para o mercado, com certeza”, afirma Ramos, que garante que o grupo está pronto para fornecer os dados necessários. “Nossa estrutura é bem robusta, nosso compliance, ele é atuante dentro da empresa, a gente está preparado, a gente já faz esse filtro, previamente, então a gente está bem seguro com relação a essa instrução, tratando ela de forma absolutamente positiva”.

Além disso, ele afirma que a instrução mostra “que os órgãos regulamentadores estão olhando para nosso mercado, e é uma evolução sim e, de novo, a gente vê muito com bons olhos a iniciativa” e que ela “dificulta a execução de crimes financeiros, com toda a certeza”.

Segundo Ramos, FortKnox é a razão do volume da NegocieCoins

Perguntamos ao assessor que razões fizeram a Negocie e a TemBTC conquistarem um volume de negociações tão acima da concorrência. E sua resposta inicial foi taxativa:

“A evolução desse volume, ela tem data, ela foi bem clara, veio através do FortKnox. E quero te passar certinho o site da Fortknox, que permite que você veja todas as transações que são feitas em tempo real”. O site indicado é o fortexplorer.info, que, segundo ele “permite ver as transações entre as exchanges”.

Somente relembrando, o FortKnox é um sistema de transferência de recursos entre as empresas do grupo Bitcoin Banco. Graças à velocidade desse sistema, um trader consegue, várias vezes por dia, comprar bitcoins numa exchange mais barata e vender na mais cara, conseguindo um lucro no processo.

O sistema que, segundo traders consultados, permite até mais de dez giros em um só dia, passou a ser apelidado pelo mercado como “arbitragem infinita”, permitindo ganhos de mais de 5% em um único dia para quem realiza o processo continuamente.

Pouca informação

Para quem quiser saber um pouco mais sobre o FortKnox, o site fortexplorer.info, traz uma lista de hashcodes que, segundo Ramos, registram cada uma das transações feitas na ferramenta.

Assim, se um valor é transmitido entre duas exchanges do grupo, ele tem de aparecer no site em tempo real. Porém, o site não deixa histórico de transações nem mostra de onde vieram ou para onde vão as transações. Para ter acesso por exemplo, a uma transação de uma semana antes, é preciso ter guardado o hashcode dela, do contrário não é possível encontrá-la, já que só aparecem no site as últimas transações efetuadas.

Assim, em questão de transparência, o site não ajuda por exemplo a saber qual o volume negociado durante um dia, por exemplo.

Bruno lembra ainda que, mesmo antes do FortKnox, a Negocie já vinha ganhando mercado por ter “código próprio” e pela sua “estrutura física e de segurança”, que “fizeram com que a gente tenha crescido”. Isso os teria ajudado a conquistar “uma grande fatia no mercado”. Em termos práticos, ele diz que isso se convertia para o traders em “cadastro rápido, agilidade no atendimento”.

Ramos destaca ainda o atendimento: “Nosso sistema está aí para provar que nosso atendimento é diferenciado. Temos RA 1000 [selo do site Reclame Aqui]; são 0,08% das empresas cadastradas que possuem”. Vale dizer que, nas semanas que se seguiram à entrevista, empresa perderia o selo, devido ao alto volume de reclamações contra ela no Reclame Aqui.

Excluídos do Coin Market Cap

Questionamos a Negocie sobre o fato de eles terem sido excluídos do Coin Market Cap para o cálculo do preço e do volume do Bitcoin no mundo, fato que aconteceu em 6 de maio passado, após a exchange ter se destacado ainda mais em termos de volume divulgado.

Segundo Ramos, a explicação passada a eles era de que o preço que a moeda possuía na exchange “prejudicava o índice deles da média”. Ramos, entretanto, não sabia que a Negocie continuava excluída do CMC, pois afirmou que exchange já havia voltado para o índice.

No mesmo dia da entrevista, checamos o site e vimos que as anotações sobre a exchange no CMC continuavam. Assim como continuam na data de publicação desta reportagem (10/6), conforme pode ser visto neste print do site:

Print do site do CMC indicando exclusão dos dados da NegocieCoins
Print do site do CMC indicando exclusão dos dados da NegocieCoins

Questionamos Ramos na tentativa de saber qual foi a argumentação do CMC para excluir a exchange e quais foram as defesas da Negocie, mas ele não conseguiu se aprofundar na resposta. O máximo que respondeu foi: “minha resposta está completa. É o que eu te falei, em momento algum essa ação consistiu em manipulação de mercado. Foi exatamente isso que a gente falou para eles”.

Diferença de preços

Perguntamos então o que acontece para que haja tanta diferença de preço entre as exchanges Negocie e TemBTC: “a diferença de preço é do mercado”, afirma o assessor. “O preço da Negocie é mais alto devido ao grande volume. Não é só da Negocie, mas de outras exchanges, que têm o preço diferenciado. Cada exchange tem seu valor”.

Fizemos diversas perguntas tentando extrair algo que fundamentasse a diferença de preços, mas Bruno insistiu que bastava a pessoa fazer uma análise técnica do site do FortKnox.

“Entenda”, disse o assessor “o volume de arbitragem que existe, o ciclo de arbitragem existe, esse ciclo é constante e pode ser feito diversas vezes por dia. O site que eu te passei [do FortKnox] é muito bacana e ele deixa muito claro quais são as operações que acontecem na velocidade que elas acontecem, ok? De novo, o nosso volume, ele cresceu exponencialmente depois da implantação do FortKnox e os ciclos de arbitragem fazem com que a gente tenha esse grande volume”.

Questionado se tratava-se do “mesmo BTC” que circulava várias vezes entre as exchanges, ele afirmou que não era o mesmo BTC. E que o sistema tinha travas para que um mesmo cliente não conseguisse negociar com ele mesmo.

Caixa-preta?

Continuamos tentando levantar os motivos da diferença de preços e afirmamos então a ele que “a função da gente, quando está fazendo uma entrevista ou quando está representando uma empresa é não entregar uma caixa-preta para quem está lendo”. Explicamos que jornalista, assim como assessor de empresa, precisa entregar “uma informação mastigada”.

Infelizmente, o argumento não demoveu o assessor: “O fato é que não é uma especulação que vai dar transparência e sim o que os dados mostram, não é? Eu sugiro insistir na transparência dos dados”.

Questionamos então, mesmo sabendo se tratar de uma comparação difícil de ser feita, como ele explicava o fato de a Negocie ter passado a Binance em volume se, em termos de acesso aos respetivos websites, o da Binance apresentava 32 milhões de acesso por mês (segundo a ferramenta Similar Web), enquanto o da Negocie apresentava só 280 mil. Infelizmente, o assessor disse não estar “preparado” para responder esse tipo de questão.

Comparação de acessos, Binance vs Negociecoins. Imagem: Similar Webs
Comparação de acessos, Binance vs Negociecoins. Imagem: Similar Webs

Perguntamos ainda se o fato de pertencer a um grupo com tipos de empresas diferentes ajudava a aumentar o volume da Negocie. A pergunta foi feita porque essa foi uma das afirmações feita pela NegocieCoins para justificar seu volume, em mensagem enviada pela exchange ao Portal do Bitcoin, como resposta ao artigo “As Corretoras Brasileiras de Criptomoedas Falsificam Volume de Bitcoin?”.

Na resposta em questão, a Negocie responde ipsis literis assim: “A média do volume diário da NegocieCoins é nitidamente maior que as das demais exchanges, e isso ocorre devido ao perfil da maioria dos seus clientes, ao fato de integrar o pool de empresas do Grupo Bitcoin Banco e à quantidade de usuários ativos”. O grifo é nosso.

Porém, ao contrário do texto de resposta, o assessor nega a relação: “não, essa afirmação não é verdadeira. O volume da Negocie é baseado nas negociações feitas por nossos clientes dentro da plataforma”. Ou, em outras palavras, “o volume da Negocie, ele é feito pela negociação que os clientes fazem na plataforma independente do Negócio que ele está fazendo entre as empresas do grupo”.

A resposta não parece condizer muito também com os “produtos” oferecidos pelo Bitcoin Banco. Um exemplo é o produto BTCM180 Trading, que exige que 92% dos fundos do cliente sejam usados para trading na NegocieCoins, como mostra o print abaixo, tirado do site do Bitcoin Banco em 10/6:

Print do site do Bitcoin Banco com o produto BTCM 180 Trading
Print do site do Bitcoin Banco com o produto BTCM 180 Trading

Outro produto, o “BTCM90 Trading”, exige 50% de trading na plataforma.

É curioso que essas obrigações de utilizar produtos do grupo não se restringem à exigência do uso da exchange. Também os produtos “Lê Reve 180” e “Lê Reve Trading” oferecem uma compensação percentual sobre o Bitcoin custodiado. Neste caso, o cliente recebe uma compensação adiantada, em reais, que só pode ser gasta no marketplace do grupo, o www.get4bit.com. Ou seja, o grupo ganha com a custódia dos bitcoins e com o lucro na venda de produtos.

Print do site do Bitcoin Banco sobre os produtos Le Reve
Print do site do Bitcoin Banco sobre os produtos Lê Reve

Combate à lavagem de dinheiro

Quem acompanha o mercado sabe que existe muita especulação sobre o que sustenta o volume e as diferenças de preços das exchanges do grupo Bitcoin Banco. Uma discussão, feita por muitos traders, é de que a plataforma poderia ser usada, de alguma forma, para lavagem de dinheiro ou outros crimes financeiros. Vale destacar que não estamos afirmando aqui que isso ocorra, mas tão somente que existe essa discussão no mercado.

Nesta linha de raciocínio, parte dos valores que circulam na plataforma seriam, sim, reais, porém frutos de crimes financeiros. Por essa lógica, um trader que utilizasse as plataformas para fazer sua “arbitragem infinita”, estaria, na verdade, ficando com parte desses recursos que estariam sendo movimentados.

Tendo em vista essa discussão, perguntamos ao assessor qual a visão do grupo sobre essa discussão da comunidade.

“Eu acompanho as críticas feitas à NegocieCoins e ao grupo Bitcoin Banco e acho natural, pois nós somos líderes do mercado. Estamos sujeitos a críticas, porém levar essa pergunta a alguma prática inidônea, eu não consigo nem responder porque isso não acontece. O nosso processo, ele é aberto. Nosso processo é aberto e nossos giros, todo o nosso procedimento é público”.

Perguntamos então o que ele poderia dizer em termos de compliance, KYC ou outros mecanismos que visassem ao combate de crimes na plataforma. “A gente não pode ser especialista em tudo. Mas o que eu posso afirmar é que todo o esforço do grupo é feito contra a corrupção e a lavagem de dinheiro”.

Aproveitando o tema, lembramos a visão empresarial do grupo, expressa no site do Bitcoin Banco, que planeja ser “a maior e mais segura organização de negócios em criptomoedas”. Com base nisso, quisemos saber que características da NegocieCoins garantem a segurança e a transparência das suas ações.

“Toda a estrutura que a gente tem, a gente tem alguns pontos e algumas medidas de segurança, o nosso código próprio, as medidas de segurança que a plataforma tem como a autenticação em dois passos, os apelidos, as perguntas de segurança, a confirmação de transações externas por e-mail, são todas as medidas que garantem a segurança das criptos custodiadas no grupo”.

Já sobre “transparência”, ele respondeu o seguinte: “a Fortknox, por exemplo, todas as transações que são efetuadas nas exchanges passam pelo site da Fortknox, ela já passa a transparência e as informações que são necessárias para a verificação das transações que ocorrem na plataforma”.

Divulgação da cold wallet

Perguntamos então se a divulgação das cold wallets da Negocie era uma medida de transparência que estava no horizonte de negócios do grupo. Ao que o assessor respondeu:

“Sim, sim, a gente está passando por diversas implantações no sistema de segurança do grupo, e um forte investimento, pesado, na questão de P&D, para que a gente tenha segurança, protegendo não os nossos clientes, como a empresa e todos os envolvidos, para que a gente possa no futuro divulgar esse números. Então as nossas ações de segurança são todas, são todos envolvidos para que a gente tenha segurança para que isso seja indicado”.

Questionamos então, explicitamente, se o plano deles é conseguir esse nível de segurança para poder divulgar a cold wallet, e ele respondeu: “o nosso plano é evoluir, mas nós não temos previsão de quando vamos nos sentir à vontade para fazer isso”.

Tentamos então saber o que justificava a não exposição do número da cold wallet, já que se trataria de divulgação de dados públicos de blockchain e, portanto, seguros. Questionamos ainda que essa divulgação é um procedimento adotado por grandes exchanges, como a Binance, por exemplo.

“É um risco de segurança”, respondeu Ramos. “E quando a gente fala de segurança, a gente não fala só necessariamente de segurança eletrônica, a gente fala de todos os níveis de segurança, ok? A blockchain é segura, as criptomoedas podem estar numa cold ou numa hot wallet, mas a quantidade de tentativas de ataque que não só a nossa plataforma, como todas as outras recebem durante o dia, ela é imensa. Você sabe disso, né? Ela é muito grande. É muita coisa, então justifica ação”.

Informações em aberto

Como explicado no início do texto, a entrevista que fizemos foi ainda na segunda semana da crise atual pela qual passa o grupo Bitcoin Banco, marcada pela restrição ou bloqueio de saques, além de uma infinidade de comunicações tumultuadas com a comunidade. Por esse motivo, não faz sentido, neste texto, entrar também neste tema.

Esperamos, sim, que as perguntas que fizemos tenham servido de espaço para a NegocieCoins apresentar sua versão sobre uma série de críticas, feitas à boca pequena na comunidade cripto, e que as respostas ajudem, de alguma forma, para que cada pessoa tenha como tirar suas próprias conclusões.

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Almir Teixeira
Almir Teixeira é jornalista desde 2001, formado pela USP. Trabalha ainda como produtor de jingles, é programador amador e entusiasta de ciência e tecnologia.

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