Cobrança de IOF das criptomoedas pelo Governo do Brasil levanta questionamentos

Advogada cita teste importante para os contornos jurídicos da regulação do setor

Em uma nova encaminhada para a reportagem do Livecoins na segunda-feira (16), a advogada Lorena Botelho comentou sobre a nova cobrança de IOF pelo Governo do Brasil em 2026 para o mercado de criptomoedas.

A proposta do governo federal de instituir uma alíquota de 3,5% de IOF sobre a compra de criptoativos surge em um momento delicado para o setor, que ainda atravessa um processo de consolidação regulatória no Brasil. Embora a iniciativa possa ser apresentada como um movimento de equiparação tributária, ela levanta questionamentos relevantes sob a ótica jurídica, especialmente quanto à segurança normativa e aos limites do poder regulamentar“, disse em comentário.

O IOF é um tributo federal cuja incidência está prevista em lei, com hipóteses específicas — crédito, câmbio, seguro e títulos ou valores mobiliários —, sendo posteriormente operacionalizado por decreto regulamentar. Nesse contexto, um dos principais pontos de atenção é o princípio da legalidade tributária“, segue explicando.

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Mas a profissional do direito ainda completa que há um possível movimento de extrapolação regulamentar. “Caso a proposta seja implementada por meio de decreto e venha a ser interpretada como a criação de um novo fato gerador, a compra de ativo virtual, e não apenas como o enquadramento de determinada operação como câmbio, pode-se abrir espaço para discussões sobre eventual extrapolação do poder regulamentar. Em matéria tributária, a tipicidade é fechada, e a ampliação do alcance do tributo sem previsão legal expressa tende a gerar controvérsia“.

“Criptoativos não são moedas estrangeiras”

Ao explicar o novo movimento do governo, Botelho lembra que as criptomoedas e stablecoins não são moedas estrangeiras. “Outro eixo sensível diz respeito à definição jurídica do objeto tributado. Criptoativos, inclusive stablecoins, não são, em regra, moeda estrangeira, tampouco se confundem necessariamente com operações de câmbio no sentido clássico, que envolvem troca de moedas ou transferências reguladas como foreign exchange.

A interpretação oficial de que a compra de criptoativos configuraria operação de câmbio para fins de incidência de IOF não decorre literalmente da lei, mas de entendimento administrativo, apoiado em recentes decisões do Banco Central. Essa fricção conceitual pode alimentar alegações de que o tributo estaria incidindo sobre um objeto jurídico distinto daquele previsto na legislação, o que tende a intensificar debates judiciais sobre a adequação do enquadramento“, explica.

“Isenção tem limitações práticas”

Em conversa com a reportagem do Livecoins, a advogada lembrou um trecho da nova possível proposta que envolve isenções a operações com R$ 10 mil.

Em paralelo, a proposta de isenção para operações de até R$ 10 mil busca mitigar impactos sobre pequenos investidores e, em termos absolutos, pode representar uma proteção relevante para esse público. Ainda assim, a medida apresenta limitações práticas. Há risco concreto de planejamento tributário agressivo por meio do fracionamento de operações, o que exigiria mecanismos rigorosos de fiscalização“, disse.

Além disso, a operacionalização da isenção demandaria sistemas robustos de monitoramento por CPF e por período, aumentando custos de compliance para provedores de serviços com ativos virtuais“, completa.

Por fim, Botelho indicou que a nova cobrança de IOF sobre criptomoedas envolve contornos jurídicos ao mercado cripto. “Diante desse cenário, a eventual implementação da alíquota de IOF sobre criptoativos tende a se tornar não apenas uma questão arrecadatória, mas também um teste importante para os contornos jurídicos da regulação do setor. Em um mercado que ainda busca previsibilidade e estabilidade normativa, a forma de estruturação da medida será determinante para evitar insegurança jurídica e litígios que possam impactar o ambiente de inovação no país“.

Crédito: Lorena Botelho, especialista em regulação financeira e criptoativos do escritório Urbano Vitalino Advogados

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Bruno Costa
Bruno Costahttps://bruno-costa.com
Bruno Costa ingressou no jornalismo cripto quando o DeFi ainda era um experimento de nicho e, desde então, tornou-se uma das principais vozes brasileiras na cobertura de finanças descentralizadas e ativos digitais. Atualmente atua como Senior Content Manager na Starkware.co, uma empresa de PR e marketing focada em DeFi, NFTs e crescimento de comunidades Web3. Seu trabalho frequentemente explora como as economias de tokens podem impulsionar a inclusão financeira no país, conectando a adoção de blockchain à realidade local. Ele é Certified Bitcoin Professional (CBP), credenciado pelo CryptoCurrency Certification Consortium (C4). Graduado em Jornalismo pela Universidade Europeia, Bruno aprofundou sua expertise com formações como o curso DAO Fundamentals (EDU Trainings) e o Web3 Solidity Bootcamp (Metana). Sua cobertura inclui adoção de DeFi em mercados emergentes, cultura NFT na América Latina e análises de UX em aplicações descentralizadas. Entre suas principais competências estão reportagem investigativa, análise do mercado cripto, construção de narrativa e estratégia de conteúdo. No Brasil, o público o conhece por portais como Cointimes.com.br, onde é colaborador regular, além de suas reportagens investigativas que revelaram golpes no setor DeFi. Uma de suas séries chegou a contribuir para alertas regulatórios e maior fiscalização por parte da CVM. Seu guia sobre stablecoins alcançou mais de 50 mil leitores e foi referenciado por três grupos acadêmicos de pesquisa, enquanto sua consultoria para uma carteira DeFi ajudou a redesenhar o conteúdo de onboarding e atraiu mais de 10 mil novos usuários. Bruno já foi citado pelo Valor Econômico, fez coberturas presenciais na São Paulo NFT Expo e no Rio Blockchain Meetup, e participou de grandes eventos como a SP Tech Week e a Blockchain Conference Brasil, onde discutiu temas sobre regulação do DeFi, UX e inovação. Curioso e criativo, com um forte foco em conectar tecnologia e cultura, ele costuma lembrar colegas e leitores de que “Journalism should empower readers with clarity in a world full of crypto hype and misinformation.” Disclaimer: Todo o conteúdo aqui apresentado diz respeito a temas de criptomoedas, blockchain e Web3 e possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui aconselhamento financeiro, de investimento ou jurídico. As análises refletem a experiência e a pesquisa pessoal do autor. O nome do autor é utilizado como pseudônimo. Sempre faça sua própria pesquisa (DYOR) antes de tomar decisões no ecossistema cripto.

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