Uma análise realizada por Felipe Américo Moraes, advogado criminalista e fundador da Chainspect, revela que os hackers das carteiras Coldcard estão utilizando a ferramenta CoinJoin para quebrar a ligação dos bitcoins roubados com o crime cometido.
Em suma, o CoinJoin permite que diversos participantes assinem uma mesma transação e recebam valores iguais na outra ponta. Isso aumenta a fungibilidade do Bitcoin, de modo que uma moeda (ou fração dela) não possa ser diferenciada de outra.
Uma analogia seria imaginar que 10 pessoas colocam um litro de água em um recipiente, mas o líquido de um dos participantes está colorido. Após isso, cada uma retira um litro.
Ou seja, pode-se saber que a água retirada está levemente colorida, mas agora é impossível distinguir a quem pertencia a água marcada.
A maior parte dos bitcoins roubados dos usuários da Coldcard continua parada
Dentre as carteiras analisadas por Felipe Américo Moraes, cerca de 1.126 bitcoins continuam acessíveis para rastreio. No entanto, outras 64,9 moedas já não podem ser mais rastreadas.
O estudo analisa as transações do endereço bc1q0rvn[…]f5q6m, ativo pela primeira vez em 2 de agosto, três dias após o primeiro ataque contra usuários das carteiras Coldcard.
Estabelecendo uma linha temporal, Moraes nota que o saldo de ~64,9 bitcoins foi inteiramente transferido para um endereço Taproot 63 horas após o ataque.
Cerca de 46 minutos após essa transação, o endereço realizou o primeiro CoinJoin, juntando-se a outros 323 participantes. A transação, no entanto, revela uma saída única de ~54,3 bitcoins, permitindo a identificação de que essas moedas pertencem ao atacante.
“Dentro de um CoinJoin não se sabe, em regra, qual saída pertence a quem. Há uma exceção que não depende de inferência: quando a saída acompanhada é maior do que tudo o que os outros participantes aportaram, ela não poderia ter sido produzida sem o valor rastreado.”

A imagem acima mostra somente uma parte das entradas e saídas da transação, mas o destaque fica para os ~54,3 bitcoins da primeira saída.
Cerca de três horas e meia depois, essas 54,3 moedas entraram em um segundo CoinJoin, novamente expondo um troco de ~47,1 bitcoins que entraram em um terceiro CoinJoin após 58 minutos, agora sim desvanecendo de identificação.
“Na terceira rodada — 04/08, 22:14, com 454 participantes — o valor rastreado foi integralmente decomposto em parcelas padronizadas. A trava aritmética dos elos anteriores não se repete, e nenhuma saída se destaca das demais.”

Embora seja possível fazer somas para tentar determinar quais moedas pertencem ao hacker, já que suas moedas representam mais da metade do valor dessa transação, Moraes explica que, a partir dali, seguir adiante seria escolher, não rastrear.
CoinJoin não é ilícito, nota advogado
Em suma, o CoinJoin é visto como uma ferramenta de privacidade, permitindo que qualquer pessoa quebre o rastro de suas transações por diversos motivos. Somado a isso, as transações CoinJoin podem ser organizadas entre os próprios participantes, não dependendo de um ponto central, impossibilitando que isso seja parado.
Felipe Américo Moraes destaca que o uso do CoinJoin é lícito.
“O emprego de CoinJoin é, em si, lícito. O que se descreve é conduta objetiva registrada em blockchain pública, cuja qualificação jurídica — inclusive a título de ocultação ou dissimulação da origem de valores — compete exclusivamente ao juízo.”
Por fim, Moraes dá destaque para outro endereço, bc1qmd5m[…]n8jp6, que, ao contrário do primeiro caso, moveu as moedas diretamente para um segundo endereço, bc1qez89[…]5dt6n, ainda permitindo o rastreio de ~30,2 bitcoins.
Outros quatro endereços continuam com os saldos parados, totalizando outros ~1.096 bitcoins.
