Bitcoin foi inventado ou descoberto?

Por mais brilhante que Satoshi tenha sido, a verdade é que se ele não tivesse descoberto o Bitcoin em 2008, alguém provavelmente já teria o descoberto atualmente.

Descoberta Bitcoin
Descoberta Bitcoin

Uma conversa recorrente na comunidade dos bitcoinheiros é a pergunta “o Bitcoin foi inventado ou descoberto?”. Inicialmente essa pergunta parece simples. Obviamente o Bitcoin foi inventado, não?

Não. Na minha opinião, o Bitcoin, assim como as outras “invenções” científicas e tecnológicas, foi descoberto e não inventado. 

O objetivo deste texto é te explicar as premissas dessa visão e te ajudar a entender porque caso Satoshi não tivesse existido, o Bitcoin teria sido descoberto por qualquer outra pessoa. 

O Possível Adjacente

Existe uma figura no nosso inconsciente coletivo que é o gênio solitário na sua garagem. Esse cientista brilhante e incompreendido está desvendando algum grande mistério da natureza sozinho. 

Essa imagem é totalmente equivocada. Mesmo gênios como Isaac Newton reconhecem que “se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”

Esse conceito parece contra intuitivo inicialmente, mas as evidências históricas comprovam esta visão. 

Existem diversas descobertas científicas, como o Cálculo e a Teoria da Seleção Natural, que ocorreram repetidamente de maneira independente. 

Teoria da Seleção Natural

A Teoria da Seleção Natural é corretamente atribuída a Charles Darwin. Sua história é bem conhecida: a volta ao mundo no Beagle, o estudo dos tentilhões nas Ilhas Galápagos, o terremoto no Chile e assim por diante. O que pouca gente sabe é que hoje em dia a Teoria da Seleção Natural é conhecida como teoria de autoria de Darwin-Wallace. 

Isso porque Darwin demorou mais de 20 anos para publicar sua descoberta e nesse meio tempo um jovem naturalista chamado Alfred Russell Wallace chegou as mesmas conclusões que Darwin havia chegado ao estudar a floresta amazônica e o Arquipélogo Malaio. Será que foi sorte de 2 raios terem caído no mesmo lugar? 

Não.  

Esses dois brilhantes cientistas possuíam acesso as mesmas referências. Ambos citam o trabalho de James Hutton e de Charles Lyell, dois geólogos que discutiam como as mudanças ocorriam gradualmente ao longo de um grande espaço de tempo, conhecido como tempo geológico ou tempo profundo.

Essa visão é conhecida como Uniformitarismo e se opõe ao Catastrofismo, que na época era associado ao Dilúvio e a ideia que a idade da Terra era de apenas 10 mil anos. Graças a esses autores, o conceito de tempo profundo começou a existir na comunidade científica. Tanto Darwin como Wallace leram esses trabalhos. 

O mesmo vale para o trabalho de Thomas R. Malthus. Malthus discutiu a questão de recursos finitos e chegou a esboçar ideias de “luta pela vida” e “sobrevivência dos mais aptos”.

Mas ele focou seu trabalho na geografia populacional, não na natureza de uma maneira mais ampla. Tanto Darwin como Wallace citam o trabalho de Malthus como peça chave no quebra-cabeça da evolução.

O mesmo vale para Newton e Leibniz, que descobriram o Cálculo de maneira independente. Os dos matemáticos passaram o resto da vida brigando para estabelecer quem havia sido o real inventor do Cálculo ao invés de supor que ele poderia sido desenvolvido duas vezes em um curto espaço de tempo.

A origem da vida

O termo “possível adjacente” foi cunhado em 1996 por Stuart Kauffman, um biólogo evolutivo. Para ele, sistemas biológicos são capazes de se transformarem em sistemas complexos a partir de mudanças incrementais. Isso ajuda a explicar como sistemas complexos tem origem: um passo de cada vez. 

Exemplificando: a origem da vida ocorreu em um ambiente primitivo conhecido como “sopa primordial”. A atmosfera não possuía oxigênio, e era rica em hidrogênio, amônia, metano e água. Algo fez com que essas moléculas se juntassem e se tornassem aminoácidos. Estes são capazes de se combinar formando proteínas e criando material orgânico.

Este material orgânico eventualmente poderia ter dado origem a vida biológica como conhecemos hoje. Cada passo dessa cadeia não poderia ter existido antes do passo anterior. O hidrogênio, o metano, a água e a amônio não se ligariam sozinhos para formar proteínas, mas a forma recombinada deles chamada aminoácidos sim. 

O possível adjacente é a essência do processo científico, quando novos conhecimentos são descobertos a partir dos conhecimentos adjacentes disponíveis, sejam livros ou artigos científicos.

Basicamente, o conhecimento científico já existente representa as peças de um quebra-cabeça que já está montado na frente de todos. O cientista que faz uma descoberta simplesmente encontra o encaixe da peça mais recentemente encaixada. 

O conceito original de “meme” foi definido pelo biológico Richard Dawkins no livro “Gene Egoísta”. Este livro é um estudo de como os genes são a unidade de seleção da evolução, não a espécie, grupo ou mesmo o indivíduo.

No livro, o autor propõe que os genes estão para a biologia como os memes estão para as informações culturais e a menor unidade de seleção cultural é um meme.

Ou seja, tanto uma história, como uma canção e mesmo uma imagem com texto em cima são memes. Analogamente ao “pool genético”, existe um “pool memético”, onde todos os memes disputam espaço, são compartilhados ou esquecidos. Essas unidades culturais estão em um pool memético, onde todos os cientistas podem consultar essas informações. 

Esse pool memético é compartilhado e torna o espaço para evolução cultural científico limitado ao possível adjacente que essas unidades de informação cultural permitem. Ou seja, não seria possível existir uma Teoria de Seleção Natural sem que existisse o Malthusianismo ou o Uniformitarismo.  

Um ser humano consegue inventar algo realmente novo?

O conceito de psico-história, pensando por Isaac Asimov, ilustra bem esse conceito. Na psico-história, mesmo que as ações de um indivíduo em particular não possam ser previstas, os eventos futuros podem ser previstos com a utilização de estatística aplicada a grandes populações. 

Tanto a psico-história, conceito de ficção científica, como o possível adjacente, da biologia, possuem como característica em comum: as ações de indivíduos específicos não importam para a tendência macro. 

Nós gostamos de nos achar floquinhos de neve especiais, mas, na verdade somos banais. Com variações básicas limitadas e alguns poucos arquétipos de personalidade possíveis, como as poucas categorias de qualquer teste de personalidade como o RIASEC ou Myers Briggs demonstram. 

O que levanta a pergunta: um ser humano consegue inventar algo realmente novo?

A Descoberta do Bitcoin

“A privacidade é necessária para uma sociedade aberta na era eletrônica.”  –Eric Hughes, Manifesto Cypherpunk, 1993

Assim como a imagem do cientista solitário, nós também tendemos a imaginar o Satoshi Nakamoto dessa maneira. Mas na realidade ele também estava em cima do ombro de gigantes quando concebeu o Bitcoin. 

O Bitcoin pode parecer “novo”, mas na realidade ele é a culminação de um processo de mais de 30 anos de um grupo de pessoas interessadas por criptografia e privacidade. São os chamados “cypherpunks”.

O Manifesto Cypherpunk data de 1993 e diversas tentativas de solucionar a questão de transmissão de valor com privacidade e sem a necessidade de um validador externo de confiança já haviam sido realizadas e falharam.

De uma maneira resumida, podemos simplificar algumas das peças de quebra-cabeça do pool memético dos cypherpunks utilizadas por Satoshi em:

  • Em 1997, Adam Back criou o Hashcash, um mecanismo anti-spam que gerava um custo (de tempo e poder computacional) para enviar um e-mail, tornando os spams economicamente inviáveis
  • Em 2004, Hal Finney criou a prova de trabalho reutilizável (reusable proof of work, RPOW em inglês), baseado no Hashcash. RPOW eram tokens criptográficos que só podiam ser utilizados uma vez. A validação e proteção contra gastos duplos ainda era executada em um servidor central. 
  • Em 2005, Nick Szabo publicou a proposta para o “bitgold”, um token digital baseado no RPOW. O bitgold não possuía um limite de tokens, mas imaginava que as unidades seriam valoradas de maneira diferente de acordo com a quantidade de processamento computacional utilizado na sua criação.
  • Em 2008, o pseudônimo Satoshi Nakamoto publicou o artigo do Bitcoin, que cita diretamente tanto o bitgold como o Hashcash.

Também existiu toda uma pré-história de desenvolvimento anterior a 1997. Foi o aprendizado gerado por todas estas tentativas que permitiu que Satoshi conseguisse alcançar esse possível adjacente mágico chamado Bitcoin. 

Por mais brilhante que Satoshi tenha sido, a verdade é que se ele não tivesse descoberto o Bitcoin em 2008, alguém provavelmente já teria o descoberto atualmente.  

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