
(Foto/Reprodução)
Milhões de dólares em Bitcoin foram roubados após uma falha de segurança atingir versões do firmware da Coldcard, uma das hardware wallets mais conhecidas entre usuários que fazem autocustódia.
O caso chamou atenção porque o ataque não explorou uma falha do Bitcoin, mas um problema em uma etapa fundamental para qualquer carteira: a geração das chaves privadas.
As primeiras informações sobre o incidente apontaram que centenas de bitcoins foram retirados de carteiras afetadas em um curto período. Análises posteriores indicaram que o número de moedas comprometidas poderia ser ainda maior, tornando o episódio um dos casos mais relevantes envolvendo segurança de carteiras físicas de Bitcoin.
A Coldcard ganhou popularidade justamente por ser considerada uma das opções mais seguras para quem deseja manter os próprios bitcoins longe de corretoras e de dispositivos conectados à internet. Por isso, o caso levantou uma discussão importante sobre os limites da autocustódia e sobre a responsabilidade dos fabricantes de ferramentas utilizadas pelo mercado.
O problema não estava no Bitcoin.
A rede continua funcionando normalmente, as transações continuam protegidas pela criptografia e nenhuma regra do protocolo foi quebrada. A falha ocorreu em uma camada anterior, no processo utilizado pelo dispositivo para criar a carteira que posteriormente seria usada para armazenar os bitcoins.
Quando uma pessoa configura uma hardware wallet, o equipamento gera uma sequência de palavras conhecida como seed phrase. Essas palavras representam a origem de todas as chaves privadas da carteira e permitem recuperar os fundos caso o dispositivo seja perdido ou destruído.
Por esse motivo, a criação da seed é uma das etapas mais importantes de todo o processo.
A segurança de uma carteira depende da qualidade da aleatoriedade utilizada nessa geração. Uma seed corretamente criada possui uma quantidade gigantesca de combinações possíveis, tornando praticamente impossível que alguém consiga descobrir a sequência utilizada por outro usuário.
Segundo as informações divulgadas sobre o incidente, determinadas versões do firmware da Coldcard apresentavam uma falha relacionada à geração de entropia, que é justamente o processo responsável por fornecer essa aleatoriedade.
Na prática, isso significa que algumas carteiras criadas durante o período afetado poderiam ter sido geradas com menos combinações possíveis do que o esperado. Para um atacante, isso reduz o espaço de busca e permite tentar reconstruir quais seeds poderiam ter sido utilizadas.
Com essas informações, os criminosos conseguiram calcular possíveis frases de recuperação, gerar os endereços correspondentes e consultar a blockchain para identificar carteiras que possuíam saldo.
Esse ponto é importante porque mostra que o ataque não aconteceu da maneira tradicional.
Os criminosos não precisaram invadir os dispositivos dos usuários, roubar senhas ou instalar programas maliciosos. A vulnerabilidade estava no momento em que a carteira foi criada.
A própria característica pública do Bitcoin, que permite que qualquer pessoa acompanhe as movimentações registradas na blockchain, acabou permitindo que os atacantes identificassem quais carteiras poderiam estar vulneráveis.
A Coinkite, empresa responsável pela Coldcard, orientou usuários afetados a não apenas atualizar o firmware do dispositivo, mas criar uma nova carteira utilizando uma nova seed e transferir os bitcoins para esse novo endereço.
Essa recomendação é um dos pontos mais importantes do caso. Uma atualização de software corrige o problema para novas carteiras, mas não altera uma seed que já foi criada anteriormente. Se a frase de recuperação nasceu em um ambiente vulnerável, ela continua representando um risco.
Outro aspecto relevante é o uso de uma passphrase BIP39 como camada complementar de segurança. Nesse modelo, além da seed phrase, o usuário define uma senha adicional necessária para derivar a carteira correta. Assim, mesmo que um atacante consiga reconstruir a frase de recuperação original, os fundos permaneceriam protegidos sem o conhecimento da passphrase. Embora essa medida não elimine vulnerabilidades relacionadas à geração da seed, uma passphrase forte poderia ter mitigado ou até impedido o acesso aos fundos pelos criminosos.
Por isso, usuários que utilizaram versões afetadas precisam verificar se suas carteiras foram criadas durante o período vulnerável e seguir as orientações oficiais da empresa.
O episódio também serve como um alerta para todos os usuários de Bitcoin que utilizam autocustódia.
A ideia de retirar os bitcoins das corretoras continua sendo uma das principais recomendações do mercado, especialmente após diversos casos de falência e bloqueio de saques em plataformas centralizadas. Porém, assumir a própria custódia significa também assumir responsabilidade pelas ferramentas utilizadas.
Uma hardware wallet oferece uma camada importante de proteção, mas ela depende de diversos fatores, incluindo o hardware, o software, os processos de desenvolvimento e as práticas adotadas pelo usuário.
Alguns cuidados ajudam a reduzir riscos. Manter o firmware atualizado é uma das medidas mais importantes, já que fabricantes costumam divulgar correções e alertas de segurança quando vulnerabilidades são identificadas.
Também é recomendável comprar dispositivos apenas de fabricantes ou revendedores oficiais, evitando equipamentos que possam ter sido modificados antes de chegar ao consumidor.
A seed phrase deve permanecer sempre offline. Guardar essas palavras em fotos, computadores, celulares ou serviços de nuvem cria novos pontos de exposição e pode comprometer uma carteira considerada segura.
Para usuários que armazenam grandes quantidades de Bitcoin, carteiras multisig podem ser uma alternativa para aumentar a segurança. Nesse modelo, a movimentação dos fundos depende de múltiplas chaves, reduzindo o impacto de uma falha em um único dispositivo.
O caso da Coldcard não significa que hardware wallets deixaram de ser uma boa solução para guardar Bitcoin. Elas continuam sendo uma das ferramentas mais utilizadas por quem deseja controlar diretamente seus ativos.
O episódio mostra, porém, que a segurança da autocustódia não depende apenas de onde a chave privada é armazenada, mas também de como ela foi criada e quais processos garantem que ela permaneça protegida.
À medida que mais pessoas passam a guardar valores relevantes em Bitcoin, a segurança das ferramentas de autocustódia se torna uma parte cada vez mais importante do próprio ecossistema. Para o usuário, a principal mudança é entender que possuir as próprias chaves também significa acompanhar como essas chaves são geradas, protegidas e mantidas ao longo do tempo.
Referências
Coinkite. Coldcard Mk3 Seed Generation Warning – What You Need to Know
https://blog.coinkite.com/coldcard-mk3-seed-generation-warning
Bitcoin Optech Newsletter #416. COLDCARD signing devices affected by severe vulnerability