Por que a Coins não quer competir com o BRICS Pay

BRICS Pay que está nas lojas de aplicativo é outra coisa, é organizado por um consórcio que afirma explicitamente não ser um órgão governamental e o documento de visão estratégica do projeto chega a citar o USD como possível bridge no desenho B2B

Por Guilherme Bissoli

Toda vez que o BRICS Pay volta ao noticiário, a discussão vira uma disputa de aplicativos: quem vence, quem substitui o SWIFT, se o dólar está ameaçado. Na nossa leitura, essa é a pergunta menos útil que se pode fazer sobre o assunto.

O que está sendo construído não é uma moeda nova. É uma forma nova de conectar moedas, sistemas de pagamento e instituições que já existem.

O bloco caminha nessa direção há algum tempo. A Declaração do Rio de Janeiro, de 2025, determinou a continuidade da BRICS Cross-Border Payments Initiative e reconheceu o trabalho técnico de mapear caminhos de interoperabilidade entre os sistemas de pagamento dos países membros, com um objetivo declarado bastante prosaico: pagamentos internacionais mais rápidos, baratos e transparentes. A Declaração de Kazan, de 2024, já falava de interoperabilidade e de uso maior de moedas locais.

O BRICS Pay que está nas lojas de aplicativos é outra coisa. Tem documentação de varejo e B2B, APIs de ponto de venda, wallet e uma arquitetura chamada DCMS, e é organizado por um consórcio ligado ao BRICS Business Council que afirma explicitamente não ser órgão governamental. O documento de visão estratégica do projeto chega a citar o USDT como possível bridge no desenho B2B.

Para quem acompanha cripto, essa última linha é a mais reveladora do material todo. Uma stablecoin aparece ali como encanamento entre mercados que ainda não têm trilho comum de liquidação. É exatamente esse o uso que nos interessa: stablecoin como infraestrutura entre instituições, não como produto de varejo.

E é aí que a regulação brasileira ficou mais importante que o aplicativo.

Em 2026, o Banco Central fechou a distância entre dois mundos que conviviam em regimes separados. As Resoluções BCB 519, 520 e 521 criaram a autorização para prestadores de serviços de ativos virtuais, definiram como essas instituições funcionam e, no ponto decisivo, colocaram determinadas operações com ativos virtuais dentro do mercado de câmbio. Pagamento e transferência internacional com ativos virtuais passaram a ser tratados como operação cambial. A instituição precisa saber a finalidade, o cliente, o ativo, o valor em reais, o pagador ou beneficiário no exterior, o país e a relação entre as partes.

Isso recebeu menos atenção do que merecia. No olhar do regulador brasileiro, stablecoins deixaram de existir apenas como categoria paralela de investimento e passaram a poder integrar a infraestrutura de movimentação internacional de dinheiro, com uma condição: a operação precisa continuar legível.

Essa condição é a parte que a indústria cripto costuma subestimar. Blockchain não apaga a natureza econômica de uma transação. Uma importação continua sendo uma importação. Um pagamento a fornecedor continua tendo beneficiário, finalidade e preço, e uma operação de câmbio continua precisando de contraparte e responsável. Muda o ativo que liquida; não muda a obrigação.

Daí a nossa posição sobre plataformas como o BRICS Pay. Um aplicativo compete por usuário. Um gateway autorizado compete por fluxo. E fluxo tende a permanecer mesmo quando a interface muda.

A Resolução 520 explica por que isso importa agora. A partir de 30 de outubro de 2026, instituições autorizadas pelo Banco Central não poderão seguir viabilizando operações de ativos virtuais com qualquer empresa estrangeira que atue no mercado brasileiro: a contraparte terá de estar autorizada ou em processo de autorização no país, com as exceções previstas na norma. Conectividade tecnológica deixou de ser suficiente. Conectividade regulatória passou a valer tanto quanto API.

Para quem está em processo de licenciamento como VASP no Brasil, isso muda o que a licença significa. Ela deixa de ser apenas obrigação de compliance e passa a funcionar como infraestrutura de distribuição. Quem combinar autorização local, Pix, câmbio, ativos virtuais, liquidez e conectividade internacional terá algo mais valioso que uma exchange: uma porta entre sistemas monetários.

É por isso que, na Coins, a pergunta estratégica é sobre fluxo e não sobre listagem. Importação e exportação, pagamento a fornecedores, remessas, tesouraria, trade finance, liquidação entre instituições, conexão com sistemas estrangeiros. Nenhum desses fluxos precisa de um aplicativo novo. Todos precisam de alguém autorizado no ponto em que o dinheiro entra ou sai do Brasil.

O erro na discussão sobre BRICS Pay é procurar um vencedor. O cenário provável é fragmentado: Pix e UPI operando em casa, BRICS Pay e redes privadas de stablecoins tentando atravessar fronteiras, bancos, CBDCs, depósitos tokenizados, blockchains públicas e infraestruturas permissionadas convivendo por muito tempo. Nenhuma dessas peças precisa substituir as outras.

O ativo estratégico é conseguir atravessá-las. Receber reais aqui, entender por que aquele dinheiro está saindo, achar a melhor liquidez, executar o câmbio, escolher o trilho, liquidar, entregar moeda local do outro lado e manter a transação inteira compreensível para os reguladores das duas pontas.

Interoperabilidade, no fim, é fazer formas diferentes de dinheiro conversarem, sem exigir que todas virem a mesma moeda. O BRICS Pay tornou essa mudança visível. A regulação brasileira está definindo quem vai poder executá-la, e é nessa fila que a Coins escolheu entrar.

Pois a possibilidade mais interessante para empresas como a Coins não é criar uma alternativa ao BRICS Pay, mas sim estar na infraestrutura que aplicativos como BRICS Pay, redes de stablecoins, PSPs asiáticos, bancos e empresas globais precisam acessar quando uma operação encontra o real.

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