Por que precisamos de mais mulheres no mundo das criptomoedas?

Para uma tecnologia que se propõe disruptiva, investir na diversidade é o caminho mais rápido para o sucesso

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Foto: Pixabay
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A história recente das criptomoedas foi impulsionada pela exuberante utopia de equalização de forças: de um lado, as grandes instituições financeiras e seus monopólios; do outro, um sistema econômico alternativo e descentralizado capaz de libertar o dinheiro e dar poder às pessoas comuns.

Mas, ironicamente, quando observamos o mundo cripto sob o viés do gênero, constatamos que a participação feminina está sub-representada nas posições de privilégio e poder, repetindo a desigualdade histórica e costumeira presente nas indústrias tradicionais. E isso não é nada bom, já que prejudica o caráter potencialmente disruptivo da tecnologia.

Para entender melhor o assunto, fomos investigar os desafios vivenciados pelas mulheres nesse ecossistema, e ouvimos o que alguns especialistas da área pensam a respeito da importância da diversidade de gênero para o desenvolvimento das criptomoedas e da blockchain.

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Analisar com empatia esse cenário é o nosso convite de hoje para você. Então, puxa uma cadeira confortável e vem com a gente.

Mulheres na tecnologia

Segundo a Coin Dance, o engajamento da comunidade de Bitcoin é composta 90,09 % por homens e 9,91% por mulheres. Em maio de 2018 esse número era ainda mais crítico, restringindo a participação feminina a meros 5,27%.

Fonte: Coin Dance

As explicações para a falta de mulheres no ecossistema cripto variam. Uma delas diz respeito a área de tecnologia como um todo, carente em ações que incentivam essa participação. Não à toda, desde cedo, crianças e adolescentes são induzidos a acreditar em uma maior afinidade das mulheres com áreas relacionadas ao cuidado (como pedagogia e enfermagem), enquanto que os homens teriam maior predisposição para áreas de exatas (engenharias e matemática, por exemplo).

Como ressalta Rafaela Romano, idealizadora do Mulheres Falam sobre Bitcoin, os “homens são incentivados a serem lideres nessas áreas, enquanto que as mulheres não”. Ela ainda acrescenta:

“Apesar de o mundo cripto ser considerado ‘de ninguém, sem fronteiras, descentralizado’, ele é produto do seu tempo e está imbricado em uma sociedade machista. Independente do propósito do criador do Bitcoin e de outras criptomoedas, elas são um reflexo direto da nossa sociedade”.

Fonte: Pixabay

A menor presença das mulheres nas áreas de STEM (sigla em inglês para ciências, tecnologia, engenharia e matemática) foi o tema da pesquisa Elas nas Ciências, realizada pela Fundação Carlos Chagas. De acordo com o estudo de 2016, realizado em escolas públicas de Ensino Médio de São Paulo, 45,7% dos cerca de mil estudantes e professores entrevistados, disseram acreditar que há certos tipos de trabalhos que devem ser executados  apenas por homens.

Nessa mesma correnteza, Liliane Tie, uma das iniciadoras e Community Builder da rede Women in Blockchain, acredita que a presença maciça de homens no ecossistema cripto, em detrimento das mulheres, é fruto de questões culturais; e acrescenta ao debate o fato de as criptomoedas estarem se popularizando em plataformas de entretenimento adulto. Para ela, “esse mercado sempre teve forte influência na economia e no comportamento da sociedade patriarcal”.

Ambiente hostil

Com suas raízes ancoradas em um machismo histórico, essa crença torna o ambiente mais hostil e decepcionante para as mulheres. O famoso artigo “Woman in Cryptocurrencies Push Back Against ‘Blockchain Bros’” (em tradução livre: Mulheres nas Criptomoedas Resistem ao ‘Blockchain Bros’) publicado pelo jornal The New York Times em 2018, ressalta a cultura do “clube do bolinha” como uma das razões que mantém as mulheres afastadas do setor.

Como exemplo, a reportagem discute campanhas de marketing usadas por startups de blockchain com imagens de mulheres vestidas de maiô, como chamariz para os investidores. Em outro momento o artigo menciona uma conferência em Miami na qual dos 87 palestrantes convidados apenas 3 eram mulheres. E, para completar, este mesmo evento realizou sua festa oficial em um clube de strip.

No Brasil, a comunidade cripto presenciou, no começo deste ano, discussões acaloradas e piadas sexistas em grupos de whatsapp por causa de camisetas com os dizeres “Satoshi is a girl”.

Situação parecida foi enfrentada pela empresa de certificação de documentos eletrônicos via blockchain, OriginalMy, que foi alvo de ataques e comentários machistas por divulgar uma vaga de desenvolvedora de sistemas, enfatizando o substantivo no feminino. “Aparentemente [o post] feriu algum princípio moral que habita nas profundezas da mente machista”, reflete Edilson Osório, cofundador da OriginalMy.

Segundo ele, ao se sentir ameaçada, a cultura do patriarcado alimenta a segregação e “como defesa, atacam com piadas de mal gosto, desdém e com um tratamento desleal, que obviamente afasta o público feminino de ambientes tóxicos e onde não se sintam bem-vindas”.

Mulheres (inovando) na blockchain

Embora seja uma verdade infeliz a desigualdade quantitativa que aponta maior presença de homens no espaço das criptomoedas, as mulheres envolvidas estão inovando com a mesma rapidez e certificando-se que todos saibam disso.

Nesse contexto, podemos destacar Taynaah Reis, fundadora e CEO da Moeda Seeds Bank, uma iniciativa que utiliza a tecnologia descentralizada para promover a inclusão financeira de comunidades rurais e de periferia. Vanessa Spiess, fundadora da Rastra, é outro exemplo de como as mulheres estão utilizando a blockchain para gerar impacto social.

Focada em uma moda sustentável, a empresa identifica, na etiqueta das roupas, todos os estágios pelos quais a peça passou. Isso permite o reaproveitamento de matérias e transformação em novas roupas, bem como condições de trabalhos mais dignas para todos os envolvidos na cadeia de produção.

Foto: Pixabay

Iniciativas como Women in Blockchain e Mulheres Falam Sobre Bitcoin, por sua vez, se apresentam como uma rede de apoio e cooperação para a inclusão de mulheres na economia descentralizada. Para as que não sabem por onde começar, Rafaela Romano sugere a participação em fóruns como o Bitcointalk e o grupo de Facebook Bitcoin Brasil Original, segundo ela, nesses espaços “sempre haverá alguém disposto a ajudar”.

Já Liliane Tie destaca o BlockTubo “um projeto open-source francês que adaptamos aqui no Brasil para democratizar os conceitos básicos da tecnologia de forma simples e lúdica”.

Diversidade = sucesso

Respondendo ao título desse artigo “Por que precisamos de mais mulheres no mundo das criptomoedas?”, a resposta é simples: diversidade = criatividade que leva à inovação.

Foto: Pixabay

De acordo com pesquisa realizado pela Morgan Stanley, negócios de tecnologia compostos por um quadro equilibrado de colaboradores do sexo masculino e feminino apresentam um faturamento 5,4% maior que empresas com pouca diversidade. Ou seja, para além das questões sociais e políticas, a falta de mulheres nas empresas de tecnologia também deve ser de interesse dos investidores que almejam negócio mais lucrativos. Ideia enfatizada por Edilson:

“Diferentes maneiras de pensar engrandecem o produto. E manter o time balanceado com todas as formas de pensamento agrega demais para o produto, para a empresa e para quem está à nossa volta”.

No ecossistema cripto não seria diferente. Mas os benefícios não param por ai:

Estabilidade

Um estudo de 2016 divulgado pela Alexander Mann Solutions, uma companhia serviços de informações financeiras, indica que as mulheres são 34% mais bem-sucedidas em negociações que seus colegas do sexo masculino. Isso porque elas são mais cautelosas quando o assunto é assumir riscos (já que riscos maiores podem levar a perdas maiores também).

A pesquisa destaca ainda um foco maior das mulheres na qualidade, em detrimento da quantidade de negociações realizadas; bem como uma inclinação 2,5 vezes menor à violação de regras e/ou práticas imprudentes.

Dessa forma, uma maior participação feminina melhoraria drasticamente a legitimação da blockchain e das criptomoedas em contextos mais tradicionais, uma vez que potenciais clientes e parceiros se sentiriam mais seguros em  investir na tecnologia.

Crescimento

Desejar um ecossistema cripto global e forte é, necessariamente, pensar em inclusão. Explico: as mulheres correspondem a 49,6% da população mundial. No Brasil, essa porcentagem é composta por 48,3% de homens e 51,7% de mulheres. Dessa forma, qualquer projeto que se proponha a crescer e se desenvolver precisará incluir as mulheres em posições de liderança e vê-las como potenciais investidoras.

“Como diz um provérbio africano: ‘se quiser ir rápido, vá sozinho, Se quiser ir mais longe, vá acompanhado’. E para isso, estamos mobilizando uma rede de apoio que conta com alguns homens também. Porque são esses homens que podem sensibilizar outros homens”, pondera Tie.

À medida que o ecossistema amadurece, depositamos a esperança de ver mais mulheres entrando no campo e contribuindo para avançar no jogo das criptomoedas e blockchain.

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Camila Marinho
Camila Marinho
Camila Marinho é jornalista, com passagem por jornais impressos e outros portais com foco em criptomoedas. Acredita que a tecnologia blockchain é como o fogo dado por Prometeu à humanidade. Cresceu sob o sol da Bahia e hoje vive no frenesi do centro de São Paulo.

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