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Brasileiro diz ter perdido todos os seus bitcoins armazenados em carteira da Coldcard e ameaça processar empresa

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Felipe Ojeda, um dos principais defensores do Bitcoin no Brasil, revelou nesta sexta-feira (31) estar entre as vítimas da falha de segurança da Coldcard. Em resumo, as carteiras geravam seeds com uma baixa entropia, permitindo que saldos fossem drenados.

Em conversa com o Livecoins, Ojeda diz possuir diversas carteiras de hardware, mas que sua Coldcard Mk3 era usada como um cofre, onde armazenava quase todo o seu capital.

“Era uma carteira ‘pai de santo’, que só recebe, e eu deixava ela 100% offline. Aí do nada, você acorda e quando vai ver, os caras limparam o bitcoin inteiro.”

Dados on-chain mostram que os fundos foram desviados para quatro endereços, totalizando mais de 1.082 bitcoins perdidos dentre todas as vítimas.

Ataque drenou cerca de 1.200 endereços em 41 minutos, o que sugere que esse é o número de vítimas. Fonte: Galaxy Research/X.

Investidor brasileiro comenta que Coldcard era famosa por sua segurança

Em nota publicada nesta sexta-feira (31), a Coldcard afirma que todas as carteiras modelos Mk3, Mk4, Mk5 e Q estão vulneráveis. Mais importante que isso, reconhece que o erro partiu da empresa, não dos usuários.

Felipe Ojeda, uma das vítimas deste ataque, diz já ter feito um boletim de ocorrência. Embora a fabricante esteja localizada no Canadá, o investidor afirma que processará a empresa no Brasil, mas não se mostra esperançoso.

“Se foram mil bitcoins [roubados], vamos supor que 200 bitcoins sejam judicializados, a empresa não vale 200 bitcoins. Qual é o valuation dessa empresa? Ela recebeu duas rodadas de investimento ali em 2013, não tem volume de vendas, apesar de ser a maior da bolha, nessa questão de autocustódia, airgapped, no mundo real fora do Bitcoin, ela não representava nada, uma empresa minúscula. Esses 200 bitcoins são a falência dela.”

Com mais de 10 anos de experiência no mercado, Ojeda diz estar relativamente tranquilo com a situação. Isso porque o erro não foi seu, mas sim de um terceiro.

“Estava até conversando com um advogado que o pessoal está querendo criar um grupo de vítimas. Eu até falei, se vocês forem contra o hacker, vocês vão perder tempo, vocês têm que entrar contra a Coinkite, primeiro porque eles confessam o erro, então eles não têm nem defesa quanto ao erro em si, a carteira não é segura, ela confessa.”

Questionado sobre como descobriu o roubo, o investidor afirma que, por acaso, percebeu uma grande saída de sua carteira, antes mesmo da postagem de um usuário no Reddit.

Após isso, passou a monitorar as redes sociais em busca de outros relatos e entrou em contato com a empresa para apontar que o gerador de seeds da carteira poderia estar com uma vulnerabilidade.

No entanto, se mostrou incomodado com a reação de Rodolfo Novak, fundador da Coinkite, empresa responsável pelo desenvolvimento das carteiras Coldcard.

“O ‘nvk’ (Rodolfo Novak) ficou tirando onda, ele postou umas duas vezes assim: “ah, alguém usou uma chave viciada e vem falar que a Coldcard tem um problema de entropia, isso é FUD”, ele estava tirando onda com o pessoal. O post dele era esse, falando que era uma chave viciada ou alguém provavelmente fazendo uma organização de UTXO e depois nos comentários ele falava que era FUD, um monte de desculpa esfarrapada.”

No mesmo dia, Novak apagou seus tuítes e sua empresa publicou um longo texto explicando a vulnerabilidade.

Sobre a cultura da autocustódia, Ojeda comenta que o movimento pode enfraquecer.

“O discurso de autocustódia vai dar uma enfraquecida grande por ser a Coldcard. Acho que a mesma situação, se acontecesse com a Ledger, com a Trezor, ou a própria Krux, que é uma outra carteira também que é raiz, as consequências seriam menores. A Coldcard não era o calcanhar de Aquiles da bolha bitconheira, ela era o saco de Adão.”

Explicando a frase, o investidor aponta que o calcanhar de Aquiles é o ponto fraco de um indivíduo, já o saco de Adão seria o ponto fraco da humanidade.

Ojeda aponta que a vulnerabilidade foi introduzida após Coldcard fechar seu código

Na conversa com o Livecoins, Felipe Ojeda comenta que já criou suas próprias carteiras como hobby, mas que não recomendava seu uso. No caso das carteiras da Coldcard, o investidor aponta que ela era vista como uma das mais seguras do setor até então, principalmente entre os maiores entusiastas.

“Uma coisa é a minha carteirinha de brincadeira lá que eu fiz com IA, eu sou um idiota brincando, e ali está escrito “não coloque grana séria aqui, isso aqui é para brincar”, outra coisa é uma empresa séria, que se vende como uma empresa séria, que se vende como algo seguro, ter uma vulnerabilidade dessa por quatro anos.”

Portanto, isso explica a sua frustração com a falha de segurança.

Analisando o problema, Ojeda nota que a Coldcard usava uma versão copiada da Trezor, que não possuía nenhuma falha. No entanto, em 2021, a empresa mudou sua licença FOSS (Free and Open-Source Software) para comercial após a Foundation copiar o seu código para usá-lo nas carteiras Passport.

“Na época, a Passport copiou o código deles, aí eles ficaram putos e fecharam essa parte, a parte da entropia é fechada. Só que aí, como você fecha uma parte e faz um downgrade de qualidade tão grande? Porque é gritante, a versão anterior a 2021 gerava carteira de 256 bits. Eu, que nem programador sou, criei geradora de carteira que gera uma carteira de 256 bits. Como os caras gigantes criam uma carteira que não gera nem perto disso, é muito suspeito.”

No caso das Passport, elas estariam seguras por estarem usando o código aberto anterior ao vulnerável. O mesmo acontece com as Mk3 da Coldcard com firmware anterior ao 4.0.1.

Tal mudança no código fez com que as seeds usassem um gerador de números pseudo-aleatórios (PRNG), diminuindo em muito a entropia das carteiras.

Ojeda também publicou um relato em seu canal no YouTube, que pode ser assistido abaixo. No vídeo, o investidor reconhece que poderia ter evitado o ataque ao ter usado uma passphrase (uma palavra única além das 24 geradas pela carteira).

“Aí tem gente que fala: “Ah, por que você não colocou uma passphrase? Por que você não fez uma multisig?” Eu tenho carteiras com passphrase e tenho carteiras com multisig. Mas eu não me sinto confortável usando passphrase depois de ver muitos clientes perderem tudo justamente por causa disso. E eu também não gosto de multisig por algumas questões específicas. No caso da própria Coldcard, por exemplo, eu teria que manter outra assinatura em uma Ledger, uma Jade ou numa BlueWallet offline. Ficaria muito mais complicado. O que eu fazia era usar cada hardware wallet para uma finalidade. A OneKey, que inclusive é parceira aqui do canal, eu uso em viagens. Ela parece um cartãozinho, é muito prática e continua sendo uma hardware wallet. Se roubarem meu celular, não conseguem mexer no dinheiro. O aplicativo da OneKey é muito bom. Para mim, é a melhor carteira multimoedas para celular. A hardware wallet ainda adiciona uma camada de segurança muito forte. Isso poderia ter acontecido com a OneKey. Poderia ter acontecido com a Ledger, com a Trezor, com a Krux, com a Seedsigner, com a BlueWallet. Poderia ter acontecido com qualquer uma. O problema é que a Coinkite, a Coldcard, nunca foi vendida como uma simples carteira. Ela era vendida como um cofre ultrasseguro.”

Na descrição do vídeo, Ojeda deixa um link para outras vítimas entrarem em contato visando entrar com uma ação coletiva contra a empresa.

Sobre carteiras de outras empresas, o investidor afirma que não confiaria mais na geração automática de nenhuma delas e que estará revisando toda a sua forma de armazenar Bitcoin.

Especialista em Bitcoin comenta o caso

Narcélio, brasileiro especialista em Bitcoin, comenta com o Livecoins que a Coldcard cometeu um erro antigo.

“Ontem, eu estava tentando entender o problema, eu dei um prompt rápido no ChatGPT, ele foi lá no repositório e descobriu o problema em três minutos. É um erro antigo, que já foi cometido por outras carteiras, várias vezes nos últimos anos, números aleatórios é a coisa mais básica que tem na criptografia.”

Sobre os outros modelos (Mk4, Mk5 e Q), que possuem uma entropia de 70 bits, Narcélio comenta que, embora seja mais difícil, também é possível invadir essas carteiras. Tanto que a própria Coldcard recomendou atualizar o firmware e criar novas seeds.

“Isso foi uma das piores coisas que aconteceu no Bitcoin.”

Indo além, o especialista questiona a sensação de segurança com softwares de código aberto. Isso porque são os atacantes quem mais estão olhando para o código em busca de vulnerabilidades, especialmente com a evolução das ferramentas de IA.

Nas redes sociais, Rodolfo Novak, fundador da Coinkite, publicou um pedido de desculpas tanto aos seus clientes quanto a toda comunidade do Bitcoin, afirmando estar devastado.

“Assumimos total responsabilidade pelo bug no firmware e oferecemos nossas sinceras desculpas às pessoas afetadas. Sabemos que um pedido de desculpas não devolve os fundos de ninguém. Sabemos que teremos de reconquistar a confiança dos nossos usuários. Isso começa sendo transparentes e dizendo a verdade sobre como isso aconteceu.”

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Henrique HK

Formado em desenvolvimento web há mais de 20 anos, Henrique Kalashnikov encontrou-se com o Bitcoin em 2016 e desde então está desvendando seus pormenores. Tradutor de mais de 100 documentos sobre criptomoedas alternativas, também já teve uma pequena fazenda de mineração com mais de 50 placas de vídeo. Atualmente segue acompanhando as tendências do setor, usando seu conhecimento para entregar bons conteúdos aos leitores do Livecoins.

Autor:
Henrique HK