
Proposta foi defendida pelo desenvolvedor Peter Todd em conferência. Imagem: bitcoin++/YouTube/Reprodução.
Após superar o BIP-110, uma proposta que visava reduzir o spam na rede, o Bitcoin pode já ter encontrado a sua próxima grande polêmica: emissão de cauda.
Em suma, isso significaria que o Bitcoin perderia seu limite máximo de 21 milhões de moedas e teria uma emissão mínima e infinita de novas moedas para subsidiar mineradores, que mantêm a segurança da rede.
O assunto não é novo, mas foi revivido nos últimos dias pelo desenvolvedor Peter Todd em conferência realizada no Canadá.
Atualmente, mineradores estão ganhando 3,125 bitcoins por cada bloco minerado. Este valor cairá para 1,5625 BTC em meados de abril de 2028 e então para 0,78125 BTC em 2032, 0,390625 BTC em 2036 e assim por diante, até chegar a zero.
Portanto, esse modelo faz com que os mineradores fiquem cada vez mais dependentes do preço do Bitcoin e das taxas de transações.
Para Peter Todd, uma solução para este problema seria acabar com o limite de 21 milhões de bitcoins, oferecendo uma recompensa fixa e infinita por bloco.
O desenvolvedor, que chegou a ser apontado como Satoshi Nakamoto por uma série da HBO, já havia publicado um texto sobre o assunto em 2022. Na data, ele afirmava que o modelo atual pode não ser sustentável e que a emissão de cauda não é inflacionária.
Participando da conferência bitcoin++ em Toronto, no Canadá, Todd voltou a falar sobre o assunto, reacendendo a polêmica.
“Isso nos leva ao meu ponto sobre se o Bitcoin tivesse emissão de cauda desde o início. Isso seria aceitável? Provavelmente, todos nós diríamos que somos economistas austríacos e faríamos uma analogia com o ouro: economicamente, está tudo bem. Talvez 1% ao ano seja um pouco excessivo, mas existe algum número abaixo do qual ninguém realmente se importaria.”
Seguindo, Todd afirma que as pessoas não se importam com essa mudança por questões econômicas, mas sim políticas. “Se o Bitcoin tivesse isso desde o início, ninguém se importaria”, afirma.
Justificando seu ponto de vista, o desenvolvedor diz que o Bitcoin opera em forte queda em relação ao seu topo histórico. Portanto, uma leve inflação anual não faria diferença em seu preço.
Continuando, Todd reconhece que o sistema está funcionando atualmente, mas que não há exemplos de outros com recompensas tão baixas, como o Bitcoin está prestes a enfrentar nas próximas décadas, em funcionamento.
“Quero dizer, quais criptomoedas alternativas sequer usam proof-of-work atualmente? Realmente não restam muitas. Isso não quer dizer que o proof-of-work seja ruim. É apenas que não temos exemplos dos quais possamos aprender, porque o Bitcoin tem sido tão dominante nesse tipo de moeda que utiliza proof-of-work. E, quando você olha para outros exemplos, eles sequer têm taxas de transação não triviais? Geralmente, não. Às vezes até têm, mas é impressionante como a estimativa de taxas de transação é problemática em praticamente qualquer outra moeda. O Bitcoin é a única que sequer precisa pensar nesse tipo de coisa.”
Finalizando, Todd explica que as pessoas migrarão para outras soluções, como de segunda camada ou Lightning Network, para evitar o pagamento de grandes taxas.
Conforme essa não é a primeira vez que a proposta de emissão de cauda é discutida, ela já recebeu críticas anteriormente. Como exemplo, Cobra, dono do site Bitcoin.org, afirmou em 2022 que preferia morrer do que ver o Bitcoin ultrapassar o seu limite de 21 milhões de unidades.
Adam Back, desenvolvedor do Hashcash, afirma que a proposta nunca será aprovada por outros desenvolvedores. “Não sei por que ele não desiste dessa ideia. Nunca vai acontecer, jamais”, escreveu Back nas redes sociais.
“Em vez de uma emissão de cauda, que tal realocar UTXOs para os mineradores caso eles permaneçam não gastos por mais de 100 anos?”, propôs o perfil Farside Insights. Em resposta, Todd afirma que o problema eclodirá muito antes de 100 anos.
Vendo a conversa da Farside e Todd, o usuário hodlonaut aponta que ambas as propostas atacam as duas propriedades mais fundamentais do Bitcoin.
“A oferta fixa e as moedas intocáveis nunca foram consideradas características opcionais do Bitcoin. O fato de estarem sendo tratadas agora como negociáveis ou até mesmo indesejáveis, pelo autor da proposta de eliminar o limite do OP_RETURN e por um membro do conselho da Brink, é, na minha opinião, algo que merece atenção.”
Por fim, após o fiasco do BIP-110, a proposta de emissão de cauda pode ser o grande próximo debate para a comunidade do Bitcoin, especialmente com a chegada do próximo halving em cerca de 600 dias. Como pode ser visto, já há uma clara divisão de opniões.