
Evento realizado em Miami mostrou que bancos e fintechs já avançam da experimentação para aplicações concretas de IA em pagamentos, compliance, identidade digital e prevenção a fraudes.
A inteligência artificial já não ocupa apenas os painéis sobre o futuro dos serviços financeiros. No Fintech Americas 2026, ela apareceu como uma infraestrutura cada vez mais presente no funcionamento cotidiano de bancos, fintechs e empresas de tecnologia.
Realizada entre os dias 24 e 26 de março, no Fontainebleau Miami Beach, a 12ª edição do evento reuniu 1.750 executivos de bancos, neobancos, cooperativas de crédito, fintechs, seguradoras, empresas de tecnologia e órgãos reguladores. Segundo a organização, o público cresceu 25% em relação ao ano anterior, com mais de 200 palestrantes internacionais ao longo dos três dias.
Sob o tema “The 4th Dimension: AI with a Soul”, ou “A Quarta Dimensão: Inteligência Artificial com Alma”, o encontro procurou responder a uma das principais questões enfrentadas atualmente pelo setor: como aproveitar o potencial da automação sem comprometer a confiança, a responsabilidade e o componente humano que sustentam as relações financeiras.
Mais do que discutir ganhos de produtividade, a programação mostrou uma indústria interessada em transformar a inteligência artificial em aplicações reais, capazes de operar dentro de ambientes regulados e em escala.
À medida que a inteligência artificial amplia a capacidade de bancos e fintechs, a mesma tecnologia também torna mais sofisticadas as tentativas de fraude.
Deepfakes, identidades sintéticas, documentos manipulados e ataques apoiados por automação colocam pressão sobre os modelos tradicionais de identificação de clientes. Com isso, compliance e prevenção a fraudes deixam de funcionar apenas como estruturas de controle e passam a ocupar uma posição central na estratégia de crescimento das empresas financeiras.
Para Georgia Sanches, Country Manager Brasil da Sumsub, um dos aspectos mais relevantes do evento foi justamente a mudança de posição da inteligência artificial dentro da indústria.
“O que mais me chamou a atenção foi como a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta promissora para se tornar a espinha dorsal da inovação financeira em toda a América Latina e no ecossistema financeiro global. As conversas não foram apenas sobre ganhos de produtividade, mas também sobre redefinir a confiança nas interações digitais. O que vejo é um mercado pronto para abraçar a IA como uma necessidade estratégica para compliance, identidade digital e prevenção de fraudes.”
A executiva destaca que o avanço da tecnologia também exige que empresas estejam preparadas para combater ameaças desenvolvidas com as mesmas ferramentas utilizadas na construção de novas soluções.
“Na Sumsub, trabalhamos com inteligência artificial desde o primeiro dia, antecipando tanto seu potencial quanto seus riscos. O recente boom apenas acelerou nossa missão de combater deepfakes, identidades sintéticas e manipulações comportamentais com a mesma tecnologia que os agentes maliciosos usam para atacar. O desafio à frente é garantir que a IA seja usada para proteger pessoas, organizações, seus ativos financeiros e suas interações.”
Na avaliação de Georgia, a próxima geração de sistemas financeiros precisará combinar eficiência, ética e resiliência. O objetivo não será apenas impedir fraudes, mas fazer isso sem criar barreiras desnecessárias para clientes legítimos ou limitar a capacidade de crescimento das empresas.
Essa preocupação ajuda a explicar a escolha do tema central do Fintech Americas. A inteligência artificial “com alma” representa uma tentativa de conciliar automação com supervisão humana, transparência e responsabilidade.
Outra tendência que ganhou força durante o evento foi a dos agentic payments, modelo no qual agentes de inteligência artificial passam a executar determinadas operações financeiras seguindo parâmetros definidos pelos usuários ou pelas empresas.
Nesse cenário, a IA deixa de apenas recomendar uma ação para efetivamente realizá-la. Um agente poderá, por exemplo, analisar uma cobrança, verificar se ela está de acordo com regras previamente estabelecidas, selecionar o melhor meio de pagamento e concluir a transação.
Para Diego Osuna, CEO e cofundador da Monabit, o setor financeiro, apesar de tradicional, está entre os primeiros a explorar como agentes autônomos poderão transformar a movimentação de recursos.
“Um dos grandes aprendizados é que a indústria financeira está hoje na vanguarda dos agentic payments. É uma das primeiras a explorar como a inteligência artificial e os agentes autônomos transformarão a forma como movemos o dinheiro. A tendência clara do evento foi o esforço para traduzir essa teoria e essas capacidades em casos de uso reais, escaláveis e aplicáveis ao dia a dia, sem deixá-las apenas no plano conceitual.”
Osuna também chama atenção para o impacto operacional da tecnologia nas startups latino-americanas. Em uma região na qual muitas empresas crescem com equipes reduzidas e recursos limitados, agentes de IA podem ampliar significativamente a capacidade de execução.
“O que mais me chamou a atenção foram as capacidades que a IA dará às startups e fintechs, sobretudo em escalabilidade e eficiência operacional. Tarefas complexas que antes exigiam amplas capacidades de talento humano poderão ser executadas por agentes autônomos, treinados e dirigidos por um número muito menor de pessoas. Isso se traduz em mais velocidade, maior eficiência e melhor qualidade.”
Segundo o executivo, esse aumento de produtividade poderá ajudar fintechs latino-americanas a competir em condições mais equilibradas com instituições que possuem estruturas maiores.
A transformação, no entanto, pode ir além da automação interna das empresas.
“Quando falamos de agentic payments, estamos dizendo que chegará o momento em que os humanos deixarão de realizar pessoalmente parte dos pagamentos. Receber ou executar um pagamento, por serem tarefas repetitivas ou baseadas em regras muito específicas, será algo que delegaremos aos nossos agentes pessoais. A IA passa de ferramenta de apoio a executora de boa parte da operação financeira cotidiana.”
A perspectiva levanta novas questões para o mercado. Quando um agente executa uma transação, será necessário determinar como o consentimento foi concedido, quais limites foram estabelecidos, quem responde por uma decisão incorreta e como uma operação suspeita poderá ser interrompida.
Por isso, o desenvolvimento dos pagamentos autônomos deverá caminhar ao lado de mecanismos mais avançados de identidade, autenticação, monitoramento e rastreabilidade.
Embora a inteligência artificial tenha conduzido a narrativa principal do evento, stablecoins, dólares digitais e infraestruturas tokenizadas também ocuparam espaço importante na programação.
A agenda reuniu discussões sobre a construção de serviços financeiros baseados em stablecoins, pagamentos disponíveis 24 horas por dia e novas estruturas para movimentação digital de valor.
A presença desses temas em um evento frequentado por instituições financeiras tradicionais demonstra que as stablecoins estão deixando de ser analisadas apenas como instrumentos do mercado cripto.
Elas passam a ser consideradas dentro de discussões sobre pagamentos internacionais, tesouraria, liquidação, acesso a moedas fortes e integração entre diferentes sistemas financeiros.
A convergência com a inteligência artificial amplia ainda mais as possibilidades. Agentes autônomos poderão utilizar diferentes trilhos de pagamento de acordo com custo, velocidade, disponibilidade e regras regulatórias. Dependendo da operação, isso poderá envolver sistemas bancários tradicionais, pagamentos instantâneos, stablecoins ou depósitos tokenizados.
Nesse ambiente, a escolha da infraestrutura poderá ocorrer nos bastidores, sem que o usuário precise compreender a complexidade tecnológica envolvida.
A principal mensagem deixada pelo Fintech Americas 2026 é que a indústria financeira começa a superar a fase de encantamento com a inteligência artificial.
O mercado agora procura aplicações capazes de reduzir custos, ampliar a produtividade, melhorar a experiência dos clientes e aumentar a segurança das operações.
Esse movimento será especialmente relevante na América Latina. A região reúne uma população altamente conectada, mercados financeiros ainda fragmentados e empresas acostumadas a crescer em ambientes de restrição operacional. Para essas instituições, a IA pode representar não apenas uma melhoria incremental, mas um instrumento de escala.
Ao mesmo tempo, quanto maior for a autonomia concedida aos sistemas, maior será a necessidade de estabelecer regras, responsabilidades e mecanismos de proteção.
O futuro apresentado em Miami não é formado apenas por máquinas que tomam decisões mais rapidamente. É um futuro no qual pagamentos, compliance, identidade digital e prevenção a fraudes passam a funcionar de maneira integrada e, em muitos casos, autônoma.
A próxima etapa da inovação financeira será definida por quem conseguir transformar essa autonomia em eficiência sem abrir mão da confiança.