Google Zero: a inteligência artificial pode quebrar a economia da web. A blockchain pode ajudar a reconstruir

Os mecanismos de busca sempre trocaram indexação por tráfego. Com a IA entregando respostas prontas, esse acordo começa a mudar e abre uma disputa sobre como criadores serão remunerados no futuro.

Durante mais de duas décadas, a economia da internet funcionou sobre uma relação que, apesar de imperfeita, criou um equilíbrio entre produtores de informação, plataformas de distribuição e usuários. Quem produzia conhecimento publicava um conteúdo, quem organizava esse conteúdo ajudava a torná-lo encontrável e quem consumia a informação chegava até a fonte original. Essa dinâmica criou uma das maiores indústrias da era digital e sustentou desde grandes veículos de mídia até criadores independentes, empresas especializadas e comunidades técnicas.

Esse modelo dependia de uma peça invisível, mas fundamental: os crawlers, ou rastreadores. Eles são robôs responsáveis por percorrer páginas da internet, identificar novos conteúdos e alimentar os índices utilizados pelos mecanismos de busca. Sem esse processo, a web seria um enorme arquivo de informações desconectadas, onde encontrar uma resposta específica seria uma tarefa praticamente impossível.

A relação entre sites e mecanismos de busca sempre funcionou como uma troca. Os produtores de conteúdo permitiam que suas páginas fossem rastreadas porque aparecer nos resultados de pesquisa significava uma oportunidade de receber visitantes. Esse tráfego poderia ser convertido em publicidade, assinaturas, vendas ou simplesmente em autoridade dentro de determinado assunto.

O arquivo robots.txt, criado para orientar o comportamento desses robôs, representa um exemplo dessa relação. Ele permite que um site informe quais áreas podem ou não ser acessadas por determinados rastreadores. Durante anos, esse modelo funcionou porque existia um benefício claro para ambos os lados: as plataformas precisavam do conteúdo produzido pela web e os produtores precisavam da distribuição oferecida por essas plataformas.

A inteligência artificial começa a alterar justamente esse equilíbrio.

Com a integração de modelos de IA aos mecanismos de busca, navegadores e assistentes digitais, a internet está passando de uma lógica baseada em descoberta para uma lógica baseada em respostas. O usuário que antes fazia uma pergunta, recebia uma lista de links e navegava por diferentes páginas para construir sua própria conclusão agora pode receber uma resposta sintetizada por um sistema capaz de analisar milhares de fontes em poucos segundos.

Essa mudança representa uma evolução real na experiência do usuário. A internet acumulou uma quantidade de informação tão grande que encontrar conhecimento relevante se tornou uma tarefa complexa. A inteligência artificial ajuda a reduzir esse problema ao comparar fontes, resumir documentos, organizar informações e entregar respostas contextualizadas.

Seria um erro tratar essa transformação como uma ameaça pura. A IA resolve um problema que já existia.

O ponto de tensão está em outro lugar: no modelo econômico que sustentava a produção dessa informação.

Esse fenômeno ficou conhecido como Google Zero (termo cunhado por Nilay Patel, do The Verge), mas a expressão representa algo maior do que uma mudança em uma única empresa. Ela descreve um cenário em que a resposta passa a valer mais do que o clique, porque o usuário pode obter a informação desejada sem necessariamente visitar a página que produziu aquele conhecimento.

A consequência econômica dessa mudança ainda está sendo compreendida.

Uma reportagem investigativa, um estudo científico, uma análise de mercado ou uma documentação técnica continuam tendo valor e continuam sendo utilizados por sistemas de inteligência artificial. A diferença é que o caminho tradicional que transformava esse uso em retorno econômico pode deixar de existir.

Antes, a informação precisava levar o usuário até a fonte. A visita ao site criava uma oportunidade de monetização. Na nova arquitetura, o conteúdo pode ser consumido como matéria-prima por uma inteligência artificial e desaparecer da experiência final do usuário.

Esse é o ponto central da discussão.

A IA não necessariamente destrói a produção de conteúdo, mas pode alterar os incentivos econômicos para produzi-lo.

O cenário cria um dilema para empresas, jornalistas, pesquisadores e criadores. Se eles bloquearem completamente os rastreadores utilizados por sistemas de inteligência artificial, podem proteger seus conteúdos no curto prazo, mas também podem perder uma nova forma de descoberta e distribuição. Por outro lado, se permitirem acesso irrestrito, podem alimentar modelos que capturam valor sem necessariamente devolver audiência ou receita para as fontes originais.

A disputa, portanto, não é simplesmente entre permitir ou bloquear crawlers.

A questão é se será criada uma nova relação econômica entre máquinas que consomem informação e pessoas que produzem conhecimento.

É importante diferenciar os tipos de rastreamento que começam a existir nessa nova fase da internet. Um crawler tradicional de busca tem como objetivo indexar páginas e ajudar usuários a encontrar fontes. Já um crawler utilizado para treinamento de modelos de inteligência artificial pode coletar grandes volumes de dados para desenvolver sistemas capazes de gerar respostas. Existe ainda uma terceira possibilidade: agentes de IA que acessam conteúdos em tempo real para responder perguntas específicas.

Cada um desses casos envolve interesses diferentes e pode exigir modelos diferentes de permissão e remuneração.

É nesse ponto que a blockchain começa a aparecer como uma possível peça dessa nova infraestrutura.

Não porque ela seja uma solução mágica para todos os problemas da inteligência artificial, mas porque algumas das limitações da internet atual estão justamente relacionadas a áreas nas quais tecnologias descentralizadas foram desenvolvidas para atuar: identidade, propriedade digital, rastreabilidade e transferência automática de valor.

O Bitcoin resolveu um problema que parecia impossível: criar propriedade digital em um ambiente onde qualquer arquivo poderia ser copiado infinitamente (problema do gasto duplo). Antes dele, a internet conseguia distribuir informação, mas não possuía uma forma nativa de representar escassez e propriedade.

A pergunta que surge agora é se esse conceito pode ser aplicado ao conhecimento.

Imagine uma reportagem, uma pesquisa científica ou uma base de dados especializada publicada na internet. Hoje, existe dificuldade em provar de forma simples quem criou aquele conteúdo, como ele foi utilizado e qual valor econômico ele ajudou a gerar depois de incorporado por outros sistemas.

Uma possível arquitetura baseada em blockchain poderia criar uma camada de identificação e registro para esses conteúdos.

Tecnologias como os Decentralized Identifiers (DIDs) permitem criar identidades digitais verificáveis sem depender de uma plataforma central. Na prática, um jornalista, uma universidade, uma empresa ou um pesquisador poderia possuir uma identidade criptográfica associada às suas publicações.

Sistemas como o Ethereum Attestation Service (EAS) permitem registrar declarações verificáveis sobre informações digitais. Isso poderia ser utilizado para criar evidência verificável e datada de autoria, validar uma licença ou registrar que determinado conteúdo pertence a uma organização específica.

O objetivo não seria armazenar todos os textos e arquivos dentro de uma blockchain, algo caro e pouco eficiente. A ideia seria criar uma camada de confiança capaz de responder perguntas essenciais em uma economia baseada em inteligência artificial: quem criou essa informação, quais são as regras de utilização e como o valor gerado pode ser distribuído.

O armazenamento poderia continuar utilizando redes especializadas como IPFS e Arweave, que foram desenvolvidas para preservar arquivos digitais de forma distribuída. A blockchain funcionaria como uma camada de registro, coordenação e execução de regras econômicas.

A etapa seguinte seria transformar permissões em código.

Por meio de smart contracts, um criador poderia definir diferentes modelos de utilização. Um artigo poderia estar disponível gratuitamente para leitura humana, mas exigir uma licença comercial quando fosse utilizado por uma empresa para desenvolver uma aplicação baseada em inteligência artificial. Uma base de dados poderia permitir pesquisa acadêmica, mas estabelecer uma remuneração quando fosse incorporada a um produto comercial.

Com o uso de stablecoins e redes blockchain de baixo custo, esses pagamentos poderiam acontecer de forma automática e global. Em vez de depender de milhares de contratos individuais negociados entre criadores e empresas, pequenas remunerações poderiam ser distribuídas conforme a utilização de determinado conteúdo.

Esse modelo se aproxima do funcionamento dos royalties em setores como música e entretenimento, que desenvolveram mecanismos para identificar obras e remunerar seus criadores conforme a utilização. A internet revolucionou a distribuição de conhecimento, mas nunca criou uma infraestrutura equivalente para textos, pesquisas, análises e informações especializadas.

A inteligência artificial expõe justamente essa lacuna.

O futuro provavelmente não será definido por uma escolha simples entre liberar ou bloquear o acesso das máquinas ao conhecimento. A tendência pode ser o surgimento de uma camada intermediária, onde agentes de IA tenham identidade, permissões e regras econômicas associadas ao uso de informações.

Nesse cenário, um crawler do futuro pode deixar de ser apenas um robô que coleta dados. Ele pode se tornar um agente identificado, operado por uma empresa ou sistema específico, que informa sua finalidade, respeita determinadas permissões e executa pagamentos automaticamente quando utiliza conhecimento protegido.

A blockchain pode ter um papel importante nessa transição porque oferece uma infraestrutura para transformar acordos digitais em regras verificáveis e executáveis.

A primeira fase da internet foi marcada pela descoberta da informação. A segunda foi marcada pela disputa pela atenção. A próxima fase será definida pela disputa sobre o valor do conhecimento.

A inteligência artificial não está destruindo a internet. Ela está revelando uma fragilidade que sempre existiu: a web aprendeu a distribuir informação, mas nunca criou uma forma eficiente de distribuir o valor gerado por essa informação.

O Google Zero pode ser lembrado não como o fim da internet baseada em links, mas como o momento em que a rede precisou evoluir de uma economia baseada em cliques para uma economia baseada em inteligência.

E nessa nova economia, a grande disputa não será apenas sobre quem desenvolverá os modelos de IA mais poderosos, mas sobre quem construirá a infraestrutura capaz de reconhecer, proteger e remunerar o conhecimento humano que alimenta essas máquinas.

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Ralph
Ralph
Cybersecurity Specialist | Ethical Hacker | Blockchain Investigator Profissional sênior em cibersegurança com sólida experiência em proteção de ativos digitais, investigação de blockchain e práticas avançadas de anonimato. Atua como consultor estratégico, educador e palestrante, com foco em mitigação de riscos pessoais e corporativos, segurança no ecossistema Bitcoin e prevenção de ameaças digitais.

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