Tether

Justiça de SP ordena que Tether congele US$ 77 mil em USDT após vítima sofrer “Golpe do Amor”

Share

Uma juíza da 31ª Vara Cível do Foro Central do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) determinou o bloqueio imediato de 77.674 USDT (aproximadamente R$ 417 mil) custodiados pela Tether Operations Limited. A decisão favorece um servidor público vítima de um esquema sofisticado de engenharia social, conhecido como Pig Butchering, ou abate de porco na tradução.

A liminar impõe à gigante das criptomoedas a obrigação de usar sua função de “blacklist” (lista negra) para impedir a movimentação dos ativos digitais desviados. A ordem judicial, contudo, encontrou forte resistência da defesa da empresa, que tentou reverter a medida sob o argumento de falta de jurisdição e risco ao sistema financeiro.

O processo detalha a construção da fraude, quando o investidor recebeu a abordagem inicial por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens. Durante semanas, o golpista evitou falar sobre dinheiro e o foco consistia na criação de um laço de confiança, com trocas de relatos sobre rotina e planos de futuro.

Após consolidar o vínculo, o criminoso introduziu o tema financeiro. Convencido da legitimidade da proposta, o autor da ação realizou a compra de USDT em uma corretora brasileira regular e enviou os valores para carteiras externas indicadas pelo fraudador.

A promessa envolvia uma suposta plataforma de investimentos exclusiva, com um site que exibia gráficos de lucros fictícios, mas, ao tentar o saque, a vítima se deparou com pedidos de taxas e impostos inexistentes. O prejuízo total somou cerca de R$ 417 mil.

Defesa da Tether tentou argumentar que “USDT é igual a dinheiro físico”, mas juíza da Vara Cível manteve congelamento

Ao identificar que parte dos valores permanecia estática em endereços na blockchain, a defesa da vítima solicitou a tutela de urgência. A juíza acolheu o pedido e determinou o congelamento.

A Tether apresentou contestação e sustentou não possuir sede no Brasil e comparou o USDT a dinheiro em espécie. Segundo a emissora, após a entrada do token em circulação, ela perde a capacidade de ingerência sobre quem detém a posse do ativo. A defesa alegou ainda que o bloqueio poderia atingir terceiros de boa-fé e causar insegurança no mercado.

A magistrada, no entanto, rejeitou os argumentos. Na segunda decisão, que manteve a liminar, a juíza destacou a capacidade técnica centralizada da Tether para censurar transações e a necessidade de proteção ao patrimônio da vítima ante o risco de dispersão irreversível.

No caso do “Falso Empresário Colombiano“, também noticiado pelo Livecoins, a Justiça Criminal do Distrito Federal validou o bloqueio administrativo de mais de 1 milhão de USDT. Naquela ocasião, a cooperação da Tether com a Polícia Civil recebeu elogios em sentença e serviu como prova fundamental para a recuperação de ativos.

A jurisprudência caminha para o entendimento de que a capacidade técnica de congelamento é um fato incontestável, independente da natureza do processo ser cível ou criminal.

Dever legal de bloqueio, diz advogado de vítima de golpe

Para o advogado Raphael Souza, responsável pela defesa do investidor lesado, a postura da empresa desafia a lógica jurídica brasileira. Em nota ao portal, o especialista reforçou a obrigação das emissoras centralizadas:

Em casos de golpe, não existe opção para a emissora de stablecoin. A empresa que controla esse tipo de ativo tem o dever jurídico de cumprir a ordem judicial de bloqueio quando os valores ainda estão localizáveis. Não se trata de colaboração voluntária, mas de obrigação legal.

A recusa injustificada pode caracterizar crime de desobediência, além de gerar responsabilidade civil, com dever de indenizar a vítima pelos prejuízos causados pela resistência ao cumprimento da decisão. Se a empresa tem capacidade de bloquear em investigações criminais, ela não pode negar essa mesma capacidade quando o Judiciário determina o bloqueio para proteger o patrimônio da vítima.

O processo segue em tramitação e a Tether ainda possui prazos para novos recursos. A decisão final poderá estabelecer um precedente sobre empresas estrangeiras que operam ativos digitais centralizados.

Ganhe até R$ 100 ao se cadastrar na melhor corretora de criptomoedas para traders do mundo. Acesse: Bybit.com
Siga o Livecoins no Google News.
Curta no Facebook, TwitterInstagram.
Bruno Costa

Bruno Costa ingressou no jornalismo cripto quando o DeFi ainda era um experimento de nicho e, desde então, tornou-se uma das principais vozes brasileiras na cobertura de finanças descentralizadas e ativos digitais. Atualmente atua como Senior Content Manager na Starkware.co, uma empresa de PR e marketing focada em DeFi, NFTs e crescimento de comunidades Web3. Seu trabalho frequentemente explora como as economias de tokens podem impulsionar a inclusão financeira no país, conectando a adoção de blockchain à realidade local. Ele é Certified Bitcoin Professional (CBP), credenciado pelo CryptoCurrency Certification Consortium (C4). Graduado em Jornalismo pela Universidade Europeia, Bruno aprofundou sua expertise com formações como o curso DAO Fundamentals (EDU Trainings) e o Web3 Solidity Bootcamp (Metana). Sua cobertura inclui adoção de DeFi em mercados emergentes, cultura NFT na América Latina e análises de UX em aplicações descentralizadas. Entre suas principais competências estão reportagem investigativa, análise do mercado cripto, construção de narrativa e estratégia de conteúdo. No Brasil, o público o conhece por portais como Cointimes.com.br, onde é colaborador regular, além de suas reportagens investigativas que revelaram golpes no setor DeFi. Uma de suas séries chegou a contribuir para alertas regulatórios e maior fiscalização por parte da CVM. Seu guia sobre stablecoins alcançou mais de 50 mil leitores e foi referenciado por três grupos acadêmicos de pesquisa, enquanto sua consultoria para uma carteira DeFi ajudou a redesenhar o conteúdo de onboarding e atraiu mais de 10 mil novos usuários. Bruno já foi citado pelo Valor Econômico, fez coberturas presenciais na São Paulo NFT Expo e no Rio Blockchain Meetup, e participou de grandes eventos como a SP Tech Week e a Blockchain Conference Brasil, onde discutiu temas sobre regulação do DeFi, UX e inovação. Curioso e criativo, com um forte foco em conectar tecnologia e cultura, ele costuma lembrar colegas e leitores de que “Journalism should empower readers with clarity in a world full of crypto hype and misinformation.” Disclaimer: Todo o conteúdo aqui apresentado diz respeito a temas de criptomoedas, blockchain e Web3 e possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui aconselhamento financeiro, de investimento ou jurídico. As análises refletem a experiência e a pesquisa pessoal do autor. O nome do autor é utilizado como pseudônimo. Sempre faça sua própria pesquisa (DYOR) antes de tomar decisões no ecossistema cripto.

Comentários
Autor:
Bruno Costa