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NYSE e a tokenização de ações: o que foi anunciado, por que isso importa e o que pode mudar na prática (inclusive para a B3)

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Nesta edição, colaborou com o tema Luiz Rodolfo M. Pires, executivo especialista em Inteligência Artificial, Machine Learning e Transformação Digital. Estatístico pela Unicamp com passagens estratégicas por líderes globais como Accenture e Oracle, Luiz combina rigor analítico com gestão de inovação em larga escala.

Com expertise corporativa em dados à vivência prática de quem atua como investidor assíduo no mercado de criptoativos desde 2015. Ele conecta a complexidade da infraestrutura tecnológica às oportunidades reais de negócio e investimento.

A notícia de que a Bolsa de Nova York está desenvolvendo uma plataforma com blockchain para ativos tokenizados circulou forte nos últimos dias. O tema chama atenção porque envolve a NYSE, mas o ponto real não é “blockchain na bolsa” como buzzword. O que esse anúncio indica de verdade é que o mercado tradicional está mirando um upgrade onde ele ainda é caro, lento e cheio de atrito: a liquidação e o pós-negociação.

A NYSE é a bolsa. Quem está por trás do projeto é a ICE (Intercontinental Exchange), grupo que controla a NYSE e opera infraestrutura de mercados financeiros no mundo inteiro. O anúncio fala do desenvolvimento de uma plataforma para negociação e liquidação de securities tokenizados, com ambição de permitir um mercado mais eficiente e até com negociação 24 horas por dia, sete dias por semana, dependendo de aprovação regulatória.

A NYSE não está sozinha nessa corrida. A LSE (Bolsa de Londres) já lançou sua unidade de mercados digitais para testar a negociação de ativos tokenizados, e a Nasdaq vem trabalhando em infraestrutura de custódia e liquidação de ativos digitais há anos. Na Ásia, a SGX (Singapura) e a HKMA (Hong Kong) lideram projetos pilotos focados em ‘dinheiro tokenizado’ para liquidar esses ativos. O movimento é global porque a dor da ineficiência é global.

O melhor jeito de entender por que isso é relevante é olhar para um detalhe que o investidor raramente vê.

Quando você compra uma ação no aplicativo, a execução é rápida. Você aperta comprar, a ordem bate e o ativo aparece na carteira. Só que aquilo é apenas o trade, o fechamento do preço. A operação ainda precisa ser liquidada, que é quando o ativo muda de dono no registro final e o dinheiro é entregue corretamente. É aqui que entram custódia, compensação, controles de risco, garantias e conciliações entre sistemas.

Um exemplo bem prático: imagine que você comprou ações às 10h17. O preço fechou naquele minuto. Mas o mercado ainda precisa garantir que o vendedor realmente entregou o papel, que o comprador realmente pagou e que tudo foi registrado sem divergência entre corretoras, clearing e custodiantes. Esse caminho existe para dar segurança, mas também cria fricção operacional e custo invisível. Em escala, isso significa capital travado em garantias, etapas redundantes e um processo que não é tão “instantâneo” quanto parece.

É exatamente esse gargalo que a tokenização tenta atacar.

Tokenizar, no contexto da NYSE/ICE, significa representar um valor mobiliário real como um token digital registrado em um ledger. Não é um token “de brincadeira” e nem um ativo sintético que só replica o preço. A proposta é que o token seja uma forma moderna de registrar e movimentar propriedade, reduzindo reconciliações e automatizando partes do pós-negociação.

A diferença prática pode ser explicada com um comparativo direto.

No modelo tradicional, você fecha o negócio agora e o acerto final acontece depois, passando por camadas de validação e processamento. No modelo tokenizado, a ideia é aproximar o mercado de uma liquidação mais sincronizada, onde a transferência de propriedade do ativo acontece de forma mais direta no ledger e o pagamento consegue acompanhar esse fluxo com menos atrito.

Só que existe um ponto técnico que separa “tokenização séria” de “tokenização de vitrine”. Tokenizar apenas o ativo resolve metade do problema. Para o ganho ser real, o dinheiro também precisa circular de forma compatível. Por isso o anúncio menciona stablecoins e mecanismos digitais em dólar como parte do fluxo. A eficiência máxima aparece quando ativo tokenizado e pagamento conseguem operar com lógica parecida, permitindo liquidação mais rápida e mais automática.

A partir daí, dá para entender o que pode mudar na prática se esse tipo de infraestrutura sair do papel.

O primeiro impacto é liquidação mais rápida. Isso reduz risco operacional e pode diminuir custos indiretos do sistema, como capital travado em garantias e exigências de margem durante o período de liquidação. Em linguagem simples, o mercado fica mais eficiente porque o “acerto” demora menos.

O segundo impacto é abrir caminho para horários mais amplos de negociação. O mercado não funciona só no horário do pregão por tradição. Existe um motivo operacional: processar, controlar risco e liquidar com segurança exige janelas e rotinas. Se o pós-negociação fica mais automatizado e eficiente, o limite de horário deixa de ser uma barreira técnica e vira uma decisão regulatória e de gestão de risco. É daí que nasce a ambição do 24/7.

O terceiro impacto é destravar novos formatos. Tokenização pode facilitar fracionamento nativo, simplificar portabilidade entre instituições e melhorar o uso de ativos como colateral em operações financeiras, porque registro e transferência ficam menos engessados. Para o investidor, isso pode virar produtos melhores e mais flexíveis com o tempo. Para o mercado, isso pode virar um novo padrão de infraestrutura.

A pergunta que muita gente faz é se isso muda a forma como você compra ações. No curto prazo, provavelmente não. Você tende a continuar comprando pelo app da corretora, com custódia institucional e regras normais. A tokenização deve aparecer primeiro como infraestrutura invisível. Só que infraestrutura invisível é o que define custo, velocidade e escala. Quando o motor muda, o resto muda depois.

E a B3, pode fazer algo parecido no Brasil? Pode sim. A bolsa brasileira tem infraestrutura madura e integrada, o que ajuda a testar mudanças sem precisar reinventar tudo do zero. Mas o desafio real não é tecnologia. É desenho regulatório, custódia e responsabilidade jurídica, integração com um trilho eficiente de dinheiro digital e liquidez. Tokenização sem liquidez vira um produto bonito. Tokenização com liquidez vira mercado de verdade.

O anúncio da NYSE e da ICE é importante porque mostra que tokenização deixou de ser só uma tese repetida em apresentações e começou a virar projeto de infraestrutura de primeira linha. E quando a maior bolsa do mundo decide atacar o settlement, o recado para o mercado global é claro: a próxima grande disputa não vai ser apenas por mais empresas listadas. Vai ser por quem consegue fazer o mercado funcionar com menos atrito, mais eficiência e, possivelmente, com mais horas abertas.

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Ralph

Cybersecurity Specialist | Ethical Hacker | Blockchain Investigator Profissional sênior em cibersegurança com sólida experiência em proteção de ativos digitais, investigação de blockchain e práticas avançadas de anonimato. Atua como consultor estratégico, educador e palestrante, com foco em mitigação de riscos pessoais e corporativos, segurança no ecossistema Bitcoin e prevenção de ameaças digitais.

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