A gestora global, dona do terceiro maior ETF de Bitcoin dos EUA, aponta que instituições financeiras estão “segurando” o mercado em momentos de queda e que a adoção tecnológica brasileira deixou a Europa e os Estados Unidos para trás.
Em um cenário de forte volatilidade no mercado de criptoativos, a gestora suíça 21Shares, pioneira global na oferta de produtos listados em bolsa (ETPs) de criptomoedas, mantém uma visão otimista sobre o futuro da classe de ativos e, de forma surpreendente, sobre o protagonismo do Brasil.
Em entrevista exclusiva ao Livecoins, Bruna Cabus e o Dr. Krisan Haria, executivos da 21Shares, detalharam as movimentações do capital institucional, o avanço dos produtos com staking e por que o mercado brasileiro se tornou uma prioridade estratégica para a empresa que hoje conta com 60 produtos listados em 17 bolsas ao redor do mundo.
Pioneirismo e o apetite institucional A 21Shares carrega no currículo o lançamento de uma cesta das cinco principais criptomoedas por capitalização de mercado na Suíça há mais de sete anos.
O caminho até o disputado mercado americano, no entanto, exigiu paciência. “Nós aplicamos, nós falamos com a SEC, fizemos todo o processo para tentar listar e foi negado”, revelou Bruna Cabus, lembrando do período anterior à entrada de gigantes tradicionais.
No entanto, a gestora obteve sucesso anos depois: “Ainda bem que, mesmo lançando e não podendo ter essa vantagem competitiva de ser os primeiros, nós conseguimos o terceiro lugar de maior ETF de Bitcoin nos Estados Unidos”.
Esse sucesso acompanha uma mudança profunda no perfil de quem investe. Durante os recentes recuos no preço do Bitcoin — que chegou a cair da faixa dos 70 mil dólares para os 60 mil dólares —, o comportamento tem sido diferente de carnificinas do passado.

Segundo a executiva, a narrativa de que o capital estaria fugindo exclusivamente para o ouro ou para ações de Inteligência Artificial já perdeu força.
O diferencial atual está no peso das tesourarias. “A quantidade de Bitcoin segurada pelos ETFs ainda está aumentando mesmo com a queda do preço”, destacou Bruna.
Ela explica que, diferente do varejo isolado, “quem segura o ETF são instituições, bancos, investidores de alta renda, governo. Tem acontecido uma segurada. Não tem um ‘sell-off’ e uma liquidação como aconteceu no passado”.
Para garantir a segurança desses bilhões em ativos, a 21Shares aposta na descentralização de riscos como um diferencial competitivo. “Nós somos os únicos que temos uma solução de custódia múltipla […] para ter uma diversificação de risco, nós usamos vários bancos depositários”, explicou Bruna, contrastando o modelo da empresa com grandes concorrentes que dependem de um único custodiante.
Staking
O Staking como a nova “conta poupança” Além do Bitcoin puro, a grande fronteira de crescimento tem sido a estruturação de produtos que geram rendimento passivo através do staking (processo de validação em redes como Ethereum e Solana).
O Dr. Krisan Haria, especialista responsável por toda a infraestrutura de provedores de staking da gestora, recorreu a uma analogia simples para explicar o complexo mecanismo.
“Você pode pensar no staking na mesma linha que uma conta poupança. Em uma conta poupança, você acumula juros; do ponto de vista do staking, você está ganhando rendimento. A diferença é que, no staking, você acumula uma recompensa diária”, explicou o Dr. Haria.
A 21Shares opera hoje o maior fundo de Solana do mundo, que gerou um patrimônio de 1.6 bilhão de dólares no ano passado e, atualmente, mesmo com a queda de preço, mantém cerca de 515 milhões de dólares rendendo a uma taxa anual de 4.17%.
O desafio, no entanto, é gerenciar o risco tecnológico envolvido nessa operação. Dr. Haria pontuou que o monitoramento é constante e rigoroso: “Nós somos muito proativos em como avaliamos a rede e como avaliamos nossos provedores de staking.
Por exemplo, houve um incidente com um provedor na última semana que sofreu um ataque hacker em seu sistema. Nós não fomos afetados por esse incidente porque trabalhamos com parceiros com os quais nos sentimos muito confortáveis e fazemos diligência”.
Ao empacotar essa tecnologia em ETPs listados em bolsa, a 21Shares resolve a dificuldade técnica de se investir nesses protocolos. “Não é fácil para qualquer pessoa, não está acessível para a minha avó, por exemplo”, citamos para os executivos. A gestora concorda, pontuando que os produtos listados são a ponte de transição do mundo cripto para o mercado financeiro tradicional.
Brasil: Muito à frente de Wall Street e da Europa Embora os produtos da gestora alcancem bolsas da Austrália ao Oriente Médio, os executivos não pouparam elogios entusiasmados ao ecossistema brasileiro.
Aproveitando as instabilidades políticas na Europa e nos EUA, o Brasil — já considerado o terceiro ou quarto maior país em adoção de cripto no mundo — tornou-se um porto seguro para o capital focado em tecnologia e inovação.
A surpresa da delegação internacional com a infraestrutura brasileira foi o ponto alto da conversa. “Tendo conversado com alguns clientes, estou maravilhado com o quão avançado o Brasil é nesse ecossistema”, declarou o Dr. Krisan Haria, reforçando que o país é um mercado massivo e ainda consideravelmente inexplorado pelas empresas europeias.
Bruna Cabus foi ainda mais incisiva na comparação com os mercados de primeiro mundo, cravando uma forte declaração sobre a maturidade institucional do país: “Se eu posso adicionar uma manchete, é que o ‘proof of concept’ [prova de conceito] acabou aqui”.
Ela argumentou que o sistema financeiro europeu ainda está travado na fase de testes: “Na Europa, você escuta muito das instituições o foco em proof of concept. Eles mostram o que eles podem fazer, mas o uso real não existe ainda.
Já no Brasil, esse não é mais o caso”. Dr. Haria complementou que, enquanto lá fora a tokenização ainda é vista como um teste de laboratório sem negociação real, no Brasil “nós vemos casos de uso reais e atuais”.
O sucesso de infraestruturas locais, como o Pix, deixou a equipe perplexa. “Eu vim com o Dr. Krisan e também com outro vice-presidente da nossa empresa dos Estados Unidos, e eles ficaram impressionados com o desenvolvimento tecnológico brasileiro. Muito mais avançado do que Estados Unidos e Europa em termos de adoção”, concluiu Bruna.
Com produtos como ETFs de Bitcoin, e fundos de Ethereum e Solana com staking já acessíveis a qualquer brasileiro por meio da B3 em formato de BDRs, a 21Shares confirma que a expansão no país é iminente. Segundo os executivos, não se trata mais de promessa tecnológica, mas de uma realidade em que o Brasil já assumiu a liderança de forma incontestável.
