A reportagem do Livecoins entrevistou Fabio Plein, Diretor Regional para Américas da Coinbase, para conversar sobre o aumento das transações com stablecoins na região, inclusive no Brasil.
De acordo com Plein, o movimento reforça o nascimento da economia onchain, levando facilidades a comércios de todos os tipos, inclusive os digitais. A seguir, leia a entrevista completa com o executivo regional.
1. A Coinbase aponta gigantes como Shopify e Nium utilizando a infraestrutura do USDC para liquidar pagamentos em 190 países. Na prática, como essa integração elimina o atrito das vendas internacionais para o lojista, especialmente em relação a taxas de conversão e prazos de liquidação?
Plein: Exemplos como Shopify e Nium representam o nascimento da primeira economia global verdadeiramente onchain. A integração por meio da blockchain Base, da Coinbase, com USDC — como já estamos vendo no caso da Shopify — é um divisor de águas para os comerciantes.
No sistema tradicional de vendas internacionais, as empresas enfrentam taxas de conversão cambial (spreads elevados), tarifas de intermediários de múltiplos bancos correspondentes e prazos de liquidação que podem variar de três a cinco dias. Com USDC na Base, eliminamos essa fricção por meio de liquidação quase instantânea a um custo praticamente zero.
Diferentemente do sistema bancário tradicional, a USDC na Base permite que o valor seja transferido do cliente para o comerciante em segundos, 24 horas por dia, sete dias por semana, por meio de uma interface simples.
2. O Coinbase Business processou mais de US$ 250 milhões em operações onchain para Pequenas e Médias Empresas (PMEs) apenas nos últimos três meses. Qual é o principal atrativo que está fazendo o pequeno empresário sair do sistema bancário tradicional e adotar criptomoedas para a gestão do seu fluxo de caixa?
Plein: Empresários buscam eficiência, e conseguimos combinar liberdade e rentabilidade em um sistema rápido e de baixo custo. Eles percebem que podem obter maiores ganhos ao investir e gerenciar seu fluxo de caixa com a agilidade proporcionada pela blockchain.
Ao migrarem para uma gestão onchain, podem realizar pagamentos globais e instantâneos, acessar recompensas e aproveitar a agilidade do ecossistema blockchain para administrar o fluxo de caixa sem a burocracia dos horários bancários ou feriados.
É a tecnologia trabalhando para aumentar a eficiência operacional de quem realmente move a economia. E, finalmente, a internet passou a ter a camada de pagamentos que merece.
3. A afirmação de que “99% do dinheiro global ainda não é nativo da internet” mostra um oceano de possibilidades. Como a Coinbase projeta a transição desse capital fiduciário para o ambiente onchain nos próximos cinco anos, e qual é o papel do USDC nessa ponte?
Plein: Estamos construindo uma sólida ponte de investimento para stablecoins como a USDC, que trará esse capital para o ambiente onchain. A USDC é a ponte perfeita, combinando a estabilidade e a unidade de conta do dólar americano com a velocidade e a transparência da blockchain.
Com a aprovação do GENIUS Act nos Estados Unidos, agora temos uma clareza regulatória sem precedentes para stablecoins, com potencial para inspirar legislações semelhantes em outras partes do mundo e dar ainda mais impulso àquelas que já avançam nessa direção, como é o caso do Brasil.
Isso aumenta a confiança para que trilhões de dólares migrem de contas bancárias lentas para protocolos onchain, onde o dinheiro pode ser programado, investido e movimentado com a mesma facilidade de enviar um e-mail. A Coinbase está entregando a infraestrutura para que empresas, pessoas e agora agentes de IA possam operar nessa nova realidade de forma interoperável e escalável.
Também vale destacar que a adoção de stablecoins não se limitará apenas às stablecoins denominadas em dólar americano. Hoje, o dólar é a principal moeda de reserva global, representando aproximadamente 60% de todas as reservas cambiais mantidas por bancos centrais no mundo.
Porém, no ecossistema onchain, 99% do valor de mercado das stablecoins está denominado em dólares. A diferença entre os mercados cambiais fiduciários e os mercados de stablecoins sugere uma enorme oportunidade e amplo espaço para o crescimento de moedas locais, como stablecoins lastreadas em real brasileiro.
4. Com a promessa de pagamentos globais em tempo real e com custo próximo a zero, o USDC ataca diretamente a ineficiência do sistema Swift. Qual é o impacto esperado dessa redução de custos para as remessas internacionais que chegam à América Latina e ao Brasil?
Plein: As remessas internacionais são vitais para a América Latina, mas o sistema SWIFT é caro e lento. O impacto esperado do uso de stablecoins como a USDC e da nossa infraestrutura de pagamentos é a democratização da riqueza.
Ao reduzir os custos de transferência para níveis próximos de zero e garantir liquidação em tempo real, mais valor chega diretamente às famílias e empresas brasileiras, sem intermediários; aumentamos a liberdade econômica e oferecemos uma alternativa real em um cenário no qual a acessibilidade financeira é prioridade. Trata-se de garantir que os trabalhadores recebam o valor integral do seu trabalho, sem taxas.
Na Coinbase, vislumbramos um futuro em que todos os ativos serão tokenizados para aproveitar a eficiência dos trilhos cripto. Estamos construindo uma infraestrutura completa, que vai de APIs e SDKs para desenvolvedores até soluções de custódia, para que essa transição aconteça de forma fluida e segura.
5. O mercado costuma debater que a verdadeira revolução financeira reside em sistemas descentralizados e incensuráveis, como o Bitcoin. Considerando que o USDC é emitido por uma entidade centralizada (Circle) e possui mecanismos que permitem o congelamento de fundos, como a Coinbase responde à crítica de que as stablecoins corporativas são apenas uma recriação do sistema fiduciário tradicional, com os mesmos riscos de censura, apenas rodando em uma infraestrutura diferente?
Plein: Stablecoins como a USDC são inerentemente mais transparentes do que moedas fiduciárias. Elas estão registradas em um livro-razão público e imutável, o que pode gerar maior confiança na realidade do sistema financeiro.
De forma mais ampla, acreditamos que a tecnologia blockchain é capaz de sustentar um novo futuro financeiro, no qual mais pessoas tenham acesso à liberdade financeira. A transparência, velocidade e eficiência das stablecoins têm o potencial de reinventar o sistema financeiro tradicional para apoiar esse futuro.
Ao mesmo tempo, é absolutamente verdade que os investidores ainda buscam uma reserva de valor que seja descentralizada e não suscetível a medidas potencialmente equivocadas de bancos centrais ou outros riscos. É por isso que tantos investidores de varejo e institucionais enxergam o Bitcoin como uma parte importante de seu planejamento financeiro.
No contexto brasileiro, acredito que ambos os ativos desempenharão um papel cada vez mais importante tanto na infraestrutura financeira quanto nas decisões financeiras dos investidores.

