Banco Central do Irã acumulou mais de US$ 500 milhões em USDT para driblar sanções e salvar moeda Rial

Relatório da Elliptic revela esquema sofisticado de Teerã para criar "dólares sintéticos" e contornar bloqueios do sistema financeiro global

O Banco Central do Irã (CBI) operou uma rede secreta de carteiras de criptoativos para acumular pelo menos US$ 507 milhões em USDT, a stablecoin lastreada em dólar da Tether. A revelação consta em um relatório publicado na quarta-feira (21) pela empresa de análise de blockchain Elliptic.

O documento detalha como o regime iraniano utilizou o ativo digital como uma ferramenta de política monetária e de evasão de sanções.

Documentos vazados indicam que as compras ocorreram principalmente entre abril e maio de 2025, pagas com Dirhams dos Emirados Árabes (AED), sinalizando uma estratégia para manter reservas em moeda forte fora do alcance das autoridades norte-americanas.

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De corretoras locais a pontes descentralizadas

A análise on-chain identificou uma mudança tática no comportamento do banco central iraniano. Até o início de junho de 2025, a maior parte dos fundos era enviada para a Nobitex, a maior corretora de criptomoedas do Irã. A plataforma servia como um hub para injetar liquidez de dólar no mercado local.

No entanto, o fluxo mudou drasticamente após um ataque cibernético em meados de junho de 2025. O grupo pró-Israel “Gonjeshke Darande” (Predatory Sparrow) invadiu a Nobitex, roubando e destruindo US$ 90 milhões em ativos, sob a alegação de que a corretora financiava o terrorismo.

Após o incidente, o CBI passou a mover os fundos para serviços de “cross-chain bridges” (pontes entre blockchains), transferindo ativos da rede Tron para a Ethereum e utilizando corretoras descentralizadas (DEXs) para ofuscar o rastro do dinheiro.

Dólar sintético e crise cambial

O relatório sugere que a aquisição massiva de USDT serviu a dois propósitos. O primeiro foi conter o colapso do Rial iraniano, que havia perdido metade de seu valor em apenas oito meses. Assim, o banco central utilizou os criptoativos para realizar operações de mercado aberto, comprando a moeda local com USDT para tentar estabilizar seu preço.

O segundo objetivo foi a criação de uma infraestrutura bancária “à prova de sanções”. Ao tratar o USDT como “contas digitais de eurodólar fora dos livros”, o regime criou uma camada financeira paralela.

Isso permitiu o pagamento de importações e a repatriação de receitas de exportação em “dólares sintéticos”, mantendo a liquidez sem passar pelo sistema SWIFT ou por bancos correspondentes nos EUA.

Transparência e bloqueios

Apesar da sofisticação do esquema, a transparência da blockchain permitiu o rastreamento dos fundos. A Elliptic destaca que, diferentemente de redes informais como o Hawala, o uso de stablecoins públicas deixa rastros digitais permanentes.

A Tether, emissora da stablecoin, demonstrou capacidade de intervir. Em 15 de junho de 2025, a empresa colocou na lista negra diversas carteiras ligadas à infraestrutura paralela do CBI, congelando cerca de US$ 37 milhões.

O caso reforça que, embora regimes sancionados recorram a criptoativos, a tecnologia também oferece ferramentas poderosas para o cumprimento da lei e bloqueio de fluxos ilícitos.

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Vinicius Golveia
Vinicius Golveia
Formado em sistema da informação pela PUC-RJ e Pós-graduado em Jornalismo Digital. Conhece o Bitcoin desde 2014, atuando como desenvolvedor de blockchain em diversas empresas. Atualmente escreve para o Livecoins sobre assuntos de criptomoedas. Gosta de cultura POP / Geek. Se não estiver escrevendo notícias relevantes, provavelmente está assistindo alguma série.

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