
Site brasileiro diz que não, mas pesquisa de mercado no Reino Unido diz que sim (Foto/Reprodução)
O portal de verificação de fatos Boatos.org publicou na última sexta-feira (30) uma análise afirmando ser falso que instituições financeiras estejam bloqueando contas de clientes que compram criptomoedas. Segundo o texto, os relatos de congelamento de saldos e encerramento de contas não passam de medidas preventivas de segurança ou desconhecimento das normas bancárias por parte dos usuários.
A publicação argumenta que o suposto “bloqueio bancário” tornou-se um tema de teorias da conspiração em redes sociais como Telegram e TikTok. Para o site, o que ocorre é apenas uma desconexão entre a velocidade dos ativos digitais e os sistemas de segurança tradicionais.
De acordo com a análise do portal, os bancos possuem a obrigação legal de monitorar atividades atípicas sob as normas de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (AML) e Combate ao Financiamento do Terrorismo (CFT).
Desta forma, movimentações financeiras para exchanges de bitcoin acionam alertas automáticos da mesma maneira que transferências para sites de apostas ou remessas internacionais inesperadas.
Entretanto, a narrativa de que os bloqueios são apenas procedimentos de rotina diverge de dados recentes divulgados pela indústria.
O Conselho de Negócios de Criptoativos do Reino Unido (UKCBC) lançou um relatório em janeiro de 2026 revelando que grandes bancos britânicos bloqueiam aproximadamente 40% das transações destinadas a corretoras de criptomoedas.
O levantamento ouviu dez das maiores plataformas centralizadas, incluindo a Coinbase (COIN) e a Kraken, e constatou que uma única empresa teve quase £ 1 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões) em depósitos recusados pelos bancos em apenas um ano.
Além disso, instituições como Virgin Money, Metro Bank e Starling Bank mantêm bloqueios totais e explícitos contra transferências para o setor, contradizendo a tese de que os travamentos são pontuais.
O relatório britânico destaca ainda que 70% das empresas do setor classificam o ambiente bancário atual como “mais hostil” do que no passado. Portanto, embora o Boatos.org afirme que o objetivo dos bancos “é proteger o cliente e não puni-lo”, a realidade documentada em grandes centros financeiros além do Brasil sugere uma política sistêmica de restrição ao acesso a criptomoedas.
O texto do site de verificação brasileiro recomenda que os usuários afetados entrem em contato com seus gerentes e forneçam a documentação necessária para liberar os recursos.
A publicação do Boatos.org cita erroneamente que o Brasil avançou na regulação com a lei aprovada em 2022, a qual reconhece o Bitcoin (BTC) e outros ativos como meios de pagamento legais sob supervisão do Banco Central do Brasil (BCB). Neste ponto, o Banco Central do Brasil responsável por regular corretoras de bitcoin não reconhece o bitcoin como meio de pagamento, apenas regula o funcionamento das corretoras de forma similar a bancos.
Por outro lado, a pesquisa do UKCBC aponta que 100% das empresas entrevistadas afirmaram que os bancos não fornecem explicações claras para os bloqueios de pagamento.
Isso gera um cenário onde, mesmo com a transparência sugerida pelo Boatos.org, o investidor muitas vezes fica sem resposta ou justificativa para a recusa de seu dinheiro.
Por fim, o debate evidencia a tensão contínua entre o sistema financeiro tradicional e a nova economia digital. Enquanto verificadores de fatos tratam o tema como alarme falso derivado de procedimentos padrão, associações comerciais apresentam números que indicam barreiras institucionais deliberadas contra a adoção das criptomoedas.
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