Entendendo o colapso da Terra (LUNA), TerraUSD (UST) e todo seu ecossistema

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Mão segurando celular com tela da criptomoeda Terra (LUNA), responsável pela TerraUSD (UST).
Mão segurando celular com tela da criptomoeda Terra (LUNA), responsável pela TerraUSD (UST).

Enquanto a volatilidade do Bitcoin pode atrair investidores, ela também espanta muitos outros. Não a toa, as stablecoins já são gigantes tanto em capitalização de mercado quanto de volume de negociações. Entretanto, muitos seguem à procura da moeda perfeita.

Para entender este caso, é preciso voltar no tempo, antes do nascimento do Bitcoin. Em 1996, Douglas Jackson criava o E-Gold, uma moeda digital com lastro em ouro, era estável e ia contra a inflação das moedas fiduciárias. Contudo, seu criador era um ponto central de falha, o que acabou com o projeto após sua prisão por facilitar transações ilícitas.

O Bitcoin resolveu essa questão, sendo impossível ser desligado. Contudo, como dito acima, sua volatilidade não agrada a todos. Sendo assim, começaram a surgir as stablecoins, cujo objetivo é manter a paridade (1:1) com o dólar, ou outras moedas.

Stablecoins com lastro de 1:1

Primeiramente surgiram as moedas lastreadas em “dólar”, como Tether (USDT), USD Coin (USDC) e outras. Embora não possuam dólares no banco para oferecer lastro, as empresas por tais destas moedas possuem reservas em ativos líquidos, como títulos de governos, papeis comerciais e, surpreendentemente, até mesmo criptomoedas. Este é um dos primeiros riscos sobre as mesmas.

Entretanto, os riscos continuam, afinal os mesmos fatores que derrubaram a E-Gold existem aqui. O governo pode facilmente congelar os fundos destas empresas, o que quase aconteceu em processo à Tether no ano passado.

Além disso, tais empresas também podem, e são, obrigadas pela justiça a congelar endereços de certos usuários. Portanto, não parece nada estável se o seu dinheiro pode ir de US$ 1 para zero, como foi destacado por Edward Snowden.

Stablecoins decentralizadas com garantias em excesso

Com isso, nasceram as stablecoins descentralizadas que possuem ativos em excesso para que as mesmas possuam lastro. A mais famosa delas é a DAI (DAI) que usa outras criptomoedas, como Ethereum e Bitcoin em seu lastro. Por seu “apoio”, tais investidores recebem um retorno anual sobre as taxas cobradas pelo protocolo.

Entretanto, para funcionar, os investidores precisam depositar um montante equivalente superior. Por exemplo, depositar o equivalente a US$ 1.500 em Ethereum para que US$ 1.000 em DAI sejam criados. Caso o preço do ETH caia, estes podem adicionar mais ETH para manter o excesso, ou então terão estes fundos automaticamente liquidados.

Stablecoins algorítmicas

Sendo assim, algumas pessoas acreditam que estas garantias em excesso são desnecessárias. Então dezenas de stablecoins algorítmicas surgiram no mercado e, embora a maioria tenha falhado rapidamente, a UST cresceu até 18,8 bilhões de dólares (R$ 96 bi), tornando-se uma das maiores criptomoedas do mercado.

Além de incluir uma teoria de jogos, onde todos ganham caso todos se ajudarem, teoricamente outros mecanismos de incentivo fazem com que o seu preço se mantenha. Ou seja, caso seu preço esteja maior que 1 dólar, as pessoas podem cunhar mais moedas por US$ 1 e então vendê-las. Caso esteja menor, elas podem comprá-las no mercado aberto e então trocá-las no protocolo por US$ 1.

Isso faria com que o UST não perdesse a sua paridade. Entretanto, por não ter garantias em excesso (nem sequer de 1:1), fez com que o UST se tornasse dependente apenas da teoria dos jogos. Sendo assim, as vendas em massa desestabilizaram seu preço a ponto dos mecanismos tornarem-se inúteis, causando ainda mais consequências.

Uma delas foi a queda de 87% da Terra (LUNA), moeda a ser cunhada pela troca de UST, devido à inflação. Então outro agravante é somado a isso, afinal, agora seriam necessários a impressão de ainda mais LUNA para manter o UST, o que continuaria derrubando o seu preço.

Além disso, outro ponto curioso é que, em março, a Terra havia comprado 1,5 bilhão de dólares (R$ 7,65 bi) em Bitcoin (BTC) para ajudar nestes incentivos. Contudo, precisou vendê-los conforme nesta semana, causando estresse até mesmo para o BTC, já em queda.

Queda do UST pode ter sido um ataque

Para os que gostam de teoria da conspiração, a queda do UST pode ter sido um ataque planejado. Segundo estes rumores, um atacante poderia ter comprado bilhões em UST e, em seguida, despejado tais moedas no mercado enquanto abria shorts (posições vendidas) em Bitcoin (BTC), no próprio TerraUSD (UST) e também em Terra (LUNA).

Afinal, após o início do pânico em observar o UST perdendo a paridade, a empresa seria obrigada a vender seus bitcoins, derrubando seu preço. Já o UST, dependente de confiança, já não teria esta mesma, e a LUNA, pelos motivos mencionados acima, também estaria fragilizada.

Embora outras stablecoins algorítmicas já tenham morrido semelhantemente, vale notar que nenhuma delas possuía o tamanho da TerraUSD (UST). Portanto, caso tenha sido um ataque, foi necessário muito dinheiro.

Além da vulnerabilidade destas stablecoins, muitos não gostam de Do Kwon, criador da Terra. Como exemplo, em março um investidor acusou a Terra (LUNA) de pirâmide financeira e apostou R$ 5 milhões, com o próprio Know, que seu preço estaria menor em 12 meses.

Equipe da Terra segue com esperanças

Em suas redes sociais, o próprio Do Kwon segue acreditando que pode salvar o UST do colapso, apesar da queda de 77% nesta madrugada de quarta-feira (11). Seu primeiro passo é aprovar uma proposta que acelere a “absorção” de UST. Além disso, parece ter noticiado que o modelo do UST não era sustentável.

“À medida que começarmos a reconstruir o UST, ajustaremos seu mecanismo para ter garantias.”

Além dele, outros membros da equipe continuam tentando tirar a água do barco furado, tentando salvar tanto o UST quanto seus egos. Já os mais corajosos, já estão comprando LUNA, acreditando que esta também possa ser salva.

“No total, comprei cerca de 100.000 LUNA. Enfiar na carteira e ver o que acontece em alguns anos. Pode ser o melhor/pior trade da minha vida. Vi uma oportunidade e tive que agarrá-la.”

No momento, tal investidor parece ter realizado o pior investimento da vida. Afinal sua compra de LUNA foi realizada a US$ 15 e a moeda já está na casa dos US$ 2, uma perda de 86% em menos de 24 horas.

Todo ecossistema da Terra afetado

Por fim, além da queda do próprio TerraUSD (UST) quando da Terra (LUNA), vale lembrar que existe todo um ecossistema ao redor destas moedas. O CoinMarketCap mostra 17 tokens do “ecossistema Luna” com registro de preço.

Tokens no ecossistema Terra. Fonte: CoinMarketCap

Obviamente, todos estão apresentando fortes baixas, afinal possuem ligação com as duas moedas de Do Kwon. Além disso, embora uma das principais características de uma stablecoin algorítmica fosse sua descentralização, tal fiasco provou que a UST está bem longe de ser independente e que além de ser “mais do mesmo”, também possui mais fragilidades.

Quanto ao futuro das stablecoins, parece sombrio. Afinal este caso já virou assunto no congresso dos EUA, tendendo a acelerar a regulamentação sobre tais moedas. Então, este deve ser mais um evento de grande impacto a todas outras criptomoedas, incluindo o Bitcoin, devido ao grande volume destes pares.

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Henrique Kalashnikov
Formado em desenvolvimento web há mais de 20 anos, Henrique Kalashnikov encontrou-se com o Bitcoin em 2016 e desde então está desvendando seus pormenores. Tradutor de mais de 100 documentos sobre criptomoedas alternativas, também já teve uma pequena fazenda de mineração com mais de 50 placas de vídeo. Atualmente segue acompanhando as tendências do setor, usando seu conhecimento para entregar bons conteúdos aos leitores do Livecoins.

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