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Zero cripto: Tether transferiu USD 300 milhões ao Banco Master por instituição alemã

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A Tether, empresa responsável pela emissão do USDT, está cobrando R$ 1,6 bilhão do Banco Master na Justiça de São Paulo. O processo que tramita na 33ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, foi ajuizado em 24 de abril de 2026 e está aguardando decisão desde esta última quinta-feira (7).

O Livecoins teve acesso à íntegra dos autos, que somam 2.799 páginas, e consultou o advogado Raphael Souza, especialista em Direito Digital e criptoativos (OAB/MG 130.203), que analisou toda a documentação do caso.

Empréstimo de USD 300 milhões feito pela Tether ao Banco Master, entenda a promessa

Em 20 de março de 2025, a Tether Investments S.A. de C.V. assinou um Facility Agreement com a Titan Capital Holding, empresa do Grupo Master registrada nas Ilhas Cayman e anteriormente denominada Master Holding. O contrato previa uma linha de crédito de USD 300 milhões, com juros de 11,875% ao ano e reembolso em 12 meses.

A Master Holding Financeira e a Master Participações, ambas com sede em São Paulo, entraram como garantidoras solidárias da operação.

O desembolso foi feito em duas parcelas: USD 100 milhões em 28 de março de 2025 e USD 200 milhões em 1º de abril do mesmo ano.

A partir de agosto de 2025, a Titan parou de pagar os juros. Em setembro, a Fitch rebaixou a classificação de risco do Banco Master. Em novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial.

A Tether declarou o vencimento antecipado de toda a dívida e, sem receber, ajuizou a execução. O débito atualizado, com juros moratórios de 13,875% ao ano, soma USD 327.392.197,17, equivalente a R$ 1.639.481.905,77 pela conversão PTAX.

Nenhum centavo em criptomoeda

A primeira revelação dos autos é sobre a forma como o dinheiro foi transferido. Apesar de a Tether ser conhecida mundialmente como emissora do USDT, a operação com o Grupo Master não teve qualquer envolvimento de criptomoedas.

Os comprovantes de desembolso que constam no processo mostram duas transferências bancárias convencionais em dólares americanos, realizadas pelo sistema SWIFT.

O banco de origem é o Joh. Berenberg, Gossler & Co. KG, sediado em Hamburgo, Alemanha. O Berenberg é o banco privado mais antigo da Alemanha, fundado em 1590. A Tether Investments mantinha conta nele (nº 05-08676-004).

O dinheiro seguiu a rota: Berenberg (Hamburgo) para o Bank of New York Mellon (Nova York) para o Banco Master (Rio de Janeiro), com depósito na conta da Titan/Master Holding.

Quem lê ‘Tether empresta ao Banco Master’ imagina uma operação envolvendo USDT, blockchain, carteiras digitais. Nos autos não tem nada disso“, explica Raphael Souza. “Os comprovantes são debit advices bancários clássicos, com SWIFT code e UETR. É uma operação de crédito corporativo internacional que passou pelo sistema bancário tradicional em três jurisdições: Alemanha, Estados Unidos e Brasil.

Cada transferência tem identificador único UETR (Unique End-to-End Transaction Reference) do sistema SWIFT, o que permite rastreamento completo da operação.

Arbitragem em Londres

Um dado inédito analisado pelo Livecoins envolve o fato de que o Grupo Master tentou contestar a cobrança na London Court of International Arbitration (LCIA) e perdeu.

Em outubro de 2025, a própria Titan instaurou o procedimento arbitral nº 256725, buscando derrubar o vencimento antecipado declarado pela Tether. O contrato de empréstimo previa arbitragem na LCIA, sob a lei inglesa.

O painel foi formado por Sir Bernard Eder (presidente), Frederico Singarajah e Sir Jeremy Cooke. Em 23 de dezembro de 2025, proferiram sentença arbitral parcial confirmando integralmente o vencimento antecipado e a exigibilidade do crédito.

A Titan provocou a arbitragem e perdeu diante de um painel de primeira linha. Sir Bernard Eder é referência internacional em arbitragem comercial. Sir Jeremy Cooke foi juiz da High Court de Londres“, aponta Souza. “Isso blinda a execução contra a principal defesa possível das executadas, que seria questionar a legitimidade do vencimento antecipado. Um tribunal arbitral escolhido pela própria Titan já decidiu que o vencimento foi válido.”

A sentença consta nos autos com tradução juramentada para o português.

Situação atual do processo aguarda decisão

As custas de R$ 115.605,78 foram pagas na segunda-feira (4) e os autos estão aguardando decisão da juíza Ana Carolina Miranda de Oliveira desde esta última quinta-feira (7).

A Tether pede citação das três executadas por oficial de justiça, penhora das contas da Titan no Banco Master (contas nº 109696-8 e nº 109771-9) e, subsidiariamente, bloqueio via SISBAJUD.

O principal desafio prático é que o Banco Master está em liquidação extrajudicial. Os recebíveis que garantem o empréstimo estão custodiados em um banco que não opera mais.

A Tether argumenta que cessão fiduciária constitui patrimônio separado, que não entra na massa liquidanda. Tem jurisprudência do STJ nesse sentido. Mas na prática, separar esses recebíveis da massa pode virar uma disputa com o liquidante nomeado pelo Banco Central. É um cenário inédito no Brasil.

Tether pode ser a maior vítima internacional do escândalo?

A Tether declarou para alguns veículos de imprensa que concedeu o empréstimo quando ainda não havia notícia de irregularidades no Grupo Master.

Se confirmado, a empresa pode ser a maior vítima internacional do escândalo: USD 300 milhões aplicados numa operação garantida por ativos de um grupo bancário que veio a ser liquidado por fraude.

O caso mostra como o mercado cripto global já está interconectado com o sistema financeiro tradicional de maneiras que poucos percebem. A Tether, que é a maior emissora de stablecoin do mundo, tinha conta em banco alemão de 1590 e fez transferência via BNY Mellon.

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Gustavo Bertolucci

Graduado em Análise de Dados e BI, interessado em novas tecnologias, fintechs e criptomoedas. Autor no portal de notícias Livecoins desde 2018.

Autor:
Gustavo Bertolucci